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sábado, junho 6, 2026
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Abrahim Baze, o Campeão

Por José Rocha – Na travessia da vida, há encontros que se tornam eternos. Alguns se apagam na poeira dos dias, outros brilham como estrelas que nunca se apagam. Hoje, quero registrar um desses encontros, que guardo com carinho e compartilho com vocês, meus amigos leitores.

Foi numa conversa simples, pelo WhatsApp, que tive o privilégio de dialogar com um dos maiores escritores e apresentadores da nossa televisão: Abrahim Baze. Para mim, ele sempre será o Campeão — apelido pouco conhecido fora do círculo íntimo, mas que carrega uma história de vida tão singular quanto grandiosa.

Recentemente, publiquei uma crônica sobre a Gripe Espanhola. Esse texto foi a ponte que aproximou novamente nossas memórias, pois o imortal da Academia Amazonense de Letras, hoje seu presidente, entrou em contato para conversarmos. Falamos pouco da pandemia e muito daquilo que nos move: o amor pela história de Manaus.

Abrahim me contou sobre sua trajetória intelectual, seus estudos profundos sobre o Amazonas, até alcançar o título máximo de Doutor em Filosofia (PhD). Recordou sua contribuição ao lado do advogado e historiador Robério Braga, na Secretaria de Cultura do Estado, e sua presença marcante na Rede Amazônica de Televisão, convidado pelo saudoso jornalista e empresário Phelippe Daou.

Eu, por minha vez, aproveitei para falar das minhas crônicas e dos livros que preparo. Mas o que realmente tocou nossos corações foram as lembranças da juventude, vividas no Igarapé de Manaus.

Recordei Abrahim ainda jovem, próspero, representante de remédios, orgulhoso de seu carro zero quilômetro, que lavava com esmero numa vila próxima à Rua Lauro Cavalcante. Houve até uma confusão engraçada: certa vez, pensou que meu irmão mais velho, José Rocha, fosse o autor do BlogdoRocha. Mas meu mano explicou que eu havia adotado o nome artístico de nosso saudoso pai para escrever sobre a cidade que tanto amamos.

Conversamos por quase meia hora. E quando lhe contei que, desde os onze anos, moro na Rua Tapajós — ao lado da Academia Amazonense de Letras — confessei que nunca havia adentrado aquele templo da cultura. Por décadas, vi os imortais entrarem e saírem, enquanto nós, “mortais” da vizinhança, ficávamos do lado de fora.

Abrahim me disse que isso está mudando: a Academia hoje abre suas portas para todos. Ainda que os estatutos privilegiem os lançamentos de livros dos membros, há espaço para o público participar dos eventos. Concordei que a tradição deve ser preservada, mas com algumas exceções que mantenham viva a cultura dos nossos antepassados.

E foi então que, após quase sessenta anos de espera, recebi dele o convite para entrar pela primeira vez na Academia Amazonense de Letras. Um gesto simples, mas que me emocionou profundamente.
Enviei-lhe alguns de meus livros em formato digital. E, ao chamá-lo de Campeão, percebi que muitos talvez não saibam a origem desse apelido.

A história é quase lendária: sua mãe, Dona Jandira Sena Baze, foi diagnosticada com um “quisto” no ovário. Ao ser submetida a cirurgia, o médico revelou ao pai de Abrahim, Akil Ayub Baze, que não se tratava de um tumor, mas de um feto. Perguntou se deveria manter. Akil, fiel às tradições sírio-libanesas que valorizavam o nascimento de homens como continuidade da linhagem, decidiu preservar. Assim, em 27 de agosto de 1949, nasceu Abrahim Sena Baze.

O poeta amazonense Jorge Tufic Alaúzo (1930-2018), também de origem libanesa, passou a chamá-lo de Campeão — aquele que venceu a vida antes mesmo de nascer, confundido com um quisto, mas destinado a ser um homem guiado pela excelência, disciplina e resiliência.

E que vitória! O menino do Igarapé tornou-se jornalista, historiador, escritor, apresentador da Fundação Rede Amazônica, autor de mais de 48 livros, referência incontornável da nossa literatura e da memória do Amazonas.

Hoje, ocupa a Cadeira nº 13 da Academia Amazonense de Letras, presidindo-a com a mesma paixão que sempre dedicou à cultura.

Por tudo isso, reafirmo: o apelido não poderia ser mais justo. Abrahim Baze é, e sempre será, o Campeão.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Se você gostou desta crônica e deseja apoiar meu trabalho de pesquisa, memória e escrita sobre Manaus e a Amazônia, sua colaboração será muito bem-vinda. Quem quiser, pode enviar qualquer valor pelo Pix: 9299153-7448. José Martins Soares.

Meu muito obrigado!

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