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‘Míra Yí’: performance indígena une dança e alerta sobre a preservação das águas

Os rios são território de pesquisa e criação de “Míra Yí”, performance concebida por Jaú Tupinambá e Mainuma Kokama, que será apresentada nos dias 15 e 16 de agosto, em territórios indígenas de Manaus.

Antes das apresentações, o público poderá acompanhar um ensaio aberto no dia 14, às 15h, no Balneário do Léo, próximo ao Flutuante Anaconda, no Parque das Tribos, Tarumã-Açu.

No dia 15, às 14h, a obra será apresentada na Comunidade Nossa Senhora do Livramento, na zona rural. Já no dia 16, às 11h, a performance será realizada na Praia da Lua, na margem esquerda do Rio Negro.

Rio é nosso parente
Em “Míra Yí”, dois seres das águas deixam o rio e chegam à terra. O deslocamento transforma seus corpos em presença e denúncia diante das ameaças que atingem os rios amazônicos. A criação reúne performance e dança e parte das experiências de Jaú e Mainuma com as águas que atravessam suas histórias e as de seus povos.

Na língua Nheengatu, “Míra Yí” pode ser compreendido como “gente da água” ou “corpo-água”. O termo sintetiza uma das ideias centrais da obra: o corpo indígena como extensão do rio e o rio como parente.

“Quando eu penso em ‘Míra Yí’, a primeira coisa que passa pela minha cabeça é o grito de socorro, não por parte dos rios, mas nosso, porque somos nós quem dependemos deles e não o contrário. Existimos porque o rio existe, porque ele nos gerou, porque ele permitiu”, afirma Jaú, do povo Tupinambá.

A criação também guarda a memória de Shirley Baré, artista conhecida como Rionegrina, cuja frase “a vida é um rio” atravessa a obra. Para Jaú, essa memória se relaciona à maneira como a performance pensa o corpo, território, ancestralidade e água.

Rios que atravessam a criação
O processo criativo ocorre nas águas e reúne experiências ligadas a diferentes rios amazônicos. Entre eles está o Rio Guajará, no Pará, um braço do Rio Tocantins e parte da história do povo Tupinambá. A região convive com os impactos da hidrelétrica de Tucuruí e com novas ameaças ambientais relacionadas à exploração do Pedral de Lourenço e ao empreendimento denominado “Arco Norte”.

A criação também parte da relação de Mainuma Kokama com o Alto e Baixo Rio Solimões, onde o desmatamento e o garimpo ilegal afetam os territórios e ampliam riscos de contaminação da água.

“Falar de ‘Míra Yí’ é também falar do tambaqui, nosso patrimônio cultural que recentemente, entrou para a lista de espécies ameaçadas de extinção. A arte se torna uma forma de alertar para o que vem acontecendo com nossos rios e igarapés. Em Manaus, águas que antes reuniam gerações hoje sofrem com esgoto, lixo e poluição. Essa memória também nos lembra da importância de cuidar dos territórios e de quem vive neles”, explica Mainuma.

A água como território
A crise climática também atravessa “Míra Yí”. Em 2023 e 2024, o Amazonas enfrentou uma das maiores secas de sua história, com impactos sobre rios, comunidades e espécies aquáticas.

O período também ficou marcado pela morte de peixes e de mais de 100 botos. Na época, a liderança Milena Kukama descreveu a dimensão da seca como o momento em que o “rio mostrou suas vergonhas”.

Os territórios escolhidos para as apresentações também integram a pesquisa. No Parque das Tribos, no Tarumã-Açu, zona oeste de Manaus, cerca de 35 etnias convivem em um território reconhecido como o primeiro bairro indígena do Amazonas.

A região enfrenta problemas de infraestrutura e saneamento, enquanto as nascentes e o Rio Tarumã sofrem com ameaças ambientais, acúmulo de lixo e alterações na qualidade da água.

Na Comunidade Nossa Senhora do Livramento, a relação com as águas determina caminhos e formas de vida. A vazante extrema interfere na navegação, no transporte de alimentos e medicamentos, na pesca, no cultivo e no turismo de base comunitária.

É nesses territórios que “Míra Yí” encontra parte das questões que orientam sua criação: o que acontece quando os rios que sustentam uma comunidade são ameaçados? E o que os próprios corpos das águas teriam a dizer sobre isso?

Criação coletiva
A performance reúne Jaú Tupinambá e Mainuma Kokama (Tainá Andes) na concepção geral da obra, com sonoplastia de Vívian di Oliveira, provocação de criação de Francis Baiardi, grafismo corporal de Amadeu Sateré Apurinã, figurino de Claudia Baré e adereços cênicos e máscaras de Davi Martins Baima. Adriano Teixeira assina fotografia e design visual; Joel Sateré e Samara Souza, o videomaker; Osvaldo Baré, a interpretação em Libras; Viviane Palandi, a produção executiva; e Jady Castro, a assistência de produção.

A performance “Míra Yí” foi contemplada pelo Edital de Fomento Cultural Multilinguagens, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC/AM) e do Governo Federal, por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).

COLUNISTAS

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