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Projeto Lagos Sentinelas reúne 90 lideranças em oficinas pré-seca no Amazonas

Realizadas pelo Projeto Lagos Sentinelas da Amazônia, as Oficinas Pré-Seca reuniram mais de 90 lideranças de 43 comunidades da Floresta Nacional de Tefé e Lago de Tefé, no Amazonas

Lideranças comunitárias e pesquisadores se reuniram, nos dias 26 e 27 de agosto, em duas Oficinas Pré-Seca realizadas na Floresta Nacional de Tefé (Flona de Tefé). As atividades fizeram parte do Projeto Lagos Sentinelas da Amazônia e aconteceram nas comunidades Tauary e Bom Jesus da Ponta da Castanha, reunindo representantes de 43 comunidades e mais de 90 lideranças comunitárias. As oficinas alcançaram lideranças de comunidades localizadas no Lago de Tefé, na região do município de Tefé, e nos rios Tefé, Bauana e Curumitá na Flona de Tefé.

A iniciativa do projeto também contou com pesquisadores do Instituto Mamirauá, que ouviram as experiências vividas pelos comunitários em secas extremas anteriores para, a partir desses relatos, promover o diálogo e construir propostas de prevenção e estratégias para enfrentar possíveis períodos de estiagem.

“A proposta vem muito no contexto das últimas secas que a nossa região passou em 2023 e 2024, com impactos sociais e ecológicos realmente sem precedentes. Isso trouxe a necessidade enorme de, junto com quem vive no território, com os comunitários, pensar soluções, entender o que está acontecendo e monitorar esses lagos e ambientes amazônicos que tanto sofreram com as secas”, explicou Ayan Fleischmann, pesquisador do Instituto Mamirauá e coordenador do Projeto Lagos Sentinelas da Amazônia.

Ao final dos encontros, as experiências compartilhadas pelas comunidades foram reunidas como subsídios para a elaboração de documentos de orientação. A proposta é que as recomendações sejam construídas a partir das próprias demandas e conhecimentos de quem vive nos territórios, podendo contribuir para futuras ações e políticas públicas.

No Projeto Lagos Sentinelas da Amazônia, ao todo, 69 pesquisadores e 200 comunitários participam das atividades do projeto, que realiza oficinas, ações socioambientais e monitoramento ambiental em cinco lagos. No estado do Amazonas as atividades são realizadas no Lago de Tefé, em Tefé; Lago de Coari, em Coari; Lago de Janauacá, em Manaquiri; e Lago de Serpa, em Itacoatiara. No estado do Pará, as ações são focadas no Lago Grande de Monte Alegre, em Monte Alegre.

Experiências que ajudam a preparar o território

A partir das oficinas, o projeto conseguiu identificar as principais dificuldades enfrentadas em períodos de seca e avaliar o que pode ser feito de forma diferente diante de futuras estiagens.

De acordo com Ayan Fleischmann, o objetivo foi transformar as experiências reunidas durante os encontros em propostas concretas.
“A gente pretende sair dessas oficinas com documentos de orientação dos comunitários, construídos por eles, sobre como lidar com secas daqui para frente”, afirma.

O documento também deve apresentar soluções para enfrentar os impactos da seca, entre elas a melhoria da sinalização do Lago de Tefé, a fim de garantir a navegabilidade durante os períodos de estiagem; investimentos em infraestrutura de saúde; melhorias na logística de distribuição de cestas básicas, para assegurar que os alimentos cheguem às comunidades durante todo o período da seca; e a implantação de sistemas de energia solar para garantir o funcionamento das bombas de água.

As oficinas reuniram um número expressivo de representantes e foram marcadas pelo interesse das lideranças em compartilhar experiências, ouvir diferentes realidades e construir consensos sobre medidas de prevenção.
“Foi muito bom ver o engajamento dessas lideranças, o interesse delas em compartilhar, em escutar e, em consenso, tomar medidas de prevenção contra a seca. A interação de cada comunidade foi muito boa de ver, o quanto elas interagiram e se interessaram pelo assunto”, relata Maria Vicenza, do Grupo de Geociências e Dinâmicas Ambientais da Amazônia do Instituto Mamirauá e atuante no projeto.

Quando a seca muda a rotina das comunidades

Para quem vive nos territórios, os impactos da estiagem vão além da redução do nível dos rios. A dificuldade de deslocamento pode comprometer o acesso a serviços, alimentos, água e atendimento de saúde. No período de estiagem, muitas comunidades também sofrem com a falta de fornecimento de energia e de água potável.

Dorimar da Silva Rodrigues, moradora da comunidade Campo Novo, localizada na Flona de Tefé, relembra as dificuldades enfrentadas durante as secas dos anos anteriores.

“Assim como muitas outras, a nossa comunidade é uma comunidade que fica isolada. Quando o rio seca bastante, a gente não consegue sair. A gente carregava água com uma hora de viagem dos igarapés, dos centros, para a gente beber. Então foi uma experiência muito difícil, muito difícil mesmo”, lembra.

Para Dorimar, a participação em oficinas e reuniões também representa uma oportunidade de adquirir conhecimento e levar novas possibilidades para a comunidade.

“Estou hoje em busca de conhecimento. Eu vim para a oficina buscar conhecimento para que a gente possa trazer para dentro da nossa comunidade”, afirma.

Saberes tradicionais e sinais da natureza

Além das experiências relacionadas à mobilidade, à água e à produção, as oficinas também abriram espaço para o compartilhamento de conhecimentos tradicionais utilizados pelas comunidades para observar mudanças no ambiente e interpretar sinais de possíveis períodos de seca ou cheia.

Segundo Arezza Simão, do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia do Instituto Mamirauá, um dos temas discutidos durante as oficinas foi o dos indicadores climáticos, sinais observados na natureza e tradicionalmente utilizados pelas comunidades para interpretar o comportamento do clima. Esses conhecimentos foram compartilhados pelos moradores durante as rodas de conversa realizadas nos dois encontros.

“Essas comunidades possuem seus conhecimentos, que vêm sendo cultivados entre suas famílias, entre seus parentes, entre a população das comunidades. Porém, hoje não podemos validar todas essas informações justamente pelas mudanças climáticas. Mesmo assim, é relevante ouvi-los, pois a maioria deles já percebe o ambiente em que vive a partir de suas experiências”, afirma Arezza.

Entre os exemplos compartilhados pelos moradores durante as conversas esteve o comportamento de animais e plantas. Entre eles, a presença de muitas borboletas durante o período de descida do rio, associada à possibilidade de uma seca mais intensa; a ave conhecida como corta-água, quando observada “cortando a água” a favor da correnteza; e o boto tucuxi, quando desce o rio, considerado pelos moradores um sinal de início da seca.

Sobre o projeto Lagos Sentinelas da Amazônia
  
O projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia: Centro Transdisciplinar para Compreensão das Dinâmicas Socioambientais e das Águas Amazônicas sob Mudanças Climáticas” é uma iniciativa que reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades ribeirinhas com o objetivo de compreender e monitorar, de forma colaborativa, os impactos das mudanças climáticas nos lagos da Amazônia Central e possíveis soluções, especialmente para comunidades que vivem no entorno.  

A iniciativa teve início diante dos cenários alarmantes enfrentados pela população e pelos ecossistemas amazônicos nos últimos anos. Lagos da região se mostraram particularmente sensíveis às mudanças climáticas, sendo impactados por secas extremas que ocasionaram a morte de diversas espécies, entre elas centenas de botos nos lagos de Tefé e Coari, no Amazonas, além de afetar a população que vive nessas regiões. Nesse contexto, devido ao fato de os lagos estarem em posições mais baixas na paisagem, eles funcionam como “sentinelas” porque recebem, abrigam, acumulam e refletem tudo o que está em seu entorno. 

O projeto é coordenado pelo pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann e é financiado pela chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia, voltada à criação de Centros Avançados em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. O projeto também conta com apoio da Fundação Gordon e Betty Moore e WCS por meio da parceria com a Aliança Águas Amazônicas, da Fapeam, Sedecti e Governo do Amazonas, além da participação de 15 instituições nacionais e internacionais. 

Entre as instituições parceiras do projeto, estão: Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), Instituto Tecnológico Vale (ITV), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade de Brasília (UnB), Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), Instituto Cary e Universidade Bangor e Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB). 

Instituto Mamirauá
Fotos e vídeos: Tácio Melo
Texto: Tácio Melo

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