Por Vinícius Andrade – Meu maior medo em relação ao filme do eterno Rei do Pop era que ele fosse apenas uma obra chapa-branca, sem coragem de abordar as polêmicas que cercaram sua vida, ou de investigar o homem por trás do mito. Constantemente me decepciono com produções desse tipo. Um exemplo é o péssimo Bohemian Rhapsody, que muita gente considera um filme sensacional. Reconheço que a atuação de Rami Malek é muito elogiada e tecnicamente impressionante, mas, para mim, ela simplesmente não funciona.
Agora, este filme pode até ser chapa-branca. Pode até ser um tributo ao Rei do Pop, mas é muito bem dirigido e muito bem atuado! Fazia tempo que eu não assistia a uma cinebiografia tão cativante, bem produzida e que realmente respeita o único Rei do Pop do mundo.
É um tributo, sim, mas um tributo que entende o peso e a aura que esse homem carregava. Houve momentos em que fiquei extremamente arrepiado com as cenas dele criando músicas, desenvolvendo suas coreografias ou até mesmo tenso durante os diálogos com o suposto pai — embora “demônio” pareça uma definição mais adequada, porque pense em um homem deplorável.
Jaafar Jackson fez seu nome aqui ao interpretar o próprio tio e entregar uma atuação absurda. É impressionante como ele consegue capturar os trejeitos, a voz, os movimentos e a presença de Michael sem que pareça uma simples imitação.
Já Colman Domingo, que interpreta o verdadeiro demônio que Michael chamava de pai, também está um absurdo. Posso não gostar nem um pouco de Joseph Jackson, mas isso se deve muito à atuação de Colman, que constrói um personagem capaz de cometer atrocidades e, ao mesmo tempo, acreditar sinceramente que está fazendo o melhor para a família. É uma atuação complexa, desconfortável e extremamente convincente.
Um absurdo de ator.
Já Jaafar Jackson, que carregava um peso muito maior ao interpretar o personagem-título, entrega uma atuação à altura do Rei do Pop e do legado que o eterno Michael merecia nesta produção. Sua performance é impressionante em praticamente todos os aspectos, desde os trejeitos até a presença de palco.
Porém, existe uma diferença importante aqui: Jaafar entrega o mito, o Rei do Pop, a lenda que conquistou o mundo. O que senti faltar, em alguns momentos, foi justamente Michael Jackson, a pessoa por trás do ícone. Entendem? O artista está ali em toda a sua grandiosidade, mas o homem por trás das luvas, dos passos de dança e dos holofotes acaba ficando um pouco em segundo plano.
Já o restante acaba sendo decepcionante. É curioso pensar que, mesmo sendo uma cinebiografia tão boa, ela ainda não consegue fazer jus ao potencial gigantesco que Michael Jackson tinha como figura mundial.
O filme também não demonstra coragem suficiente para mergulhar nas polêmicas ou explorar o homem por trás da estrela. Tudo é apenas pincelado. Os temas mais delicados são abordados superficialmente, sem a profundidade necessária para compreendermos quem era Michael além dos palcos.
Os próprios irmãos têm relevância quase nula para a história, mesmo com boa parte da narrativa sendo dedicada ao início dos Jackson 5. As irmãs são praticamente apagadas do roteiro, como se não fizessem parte daquela trajetória.
A única relação que realmente recebe desenvolvimento é a de Michael com o pai. E mesmo aí existe uma certa suavização dos acontecimentos — principalmente das agressões que Michael sofria — provavelmente para evitar uma classificação indicativa mais alta e um possível impacto na bilheteria.
No fim das contas, o foco é tão concentrado nessa dinâmica que o restante da família acaba ficando completamente em segundo plano.
E não, eu não queria que o filme desse palco para mentiras envolvendo o nome do Rei do Pop. Essa nem é a questão. O que senti falta foi de uma exploração mais profunda de aspectos importantes da vida de Michael.
Mostrem a relação dele com Quincy Jones. Mostrem de forma mais detalhada a amizade e a confiança que existiam entre ele e seu segurança. Mostrem as pessoas que ajudaram a construir o artista e o homem que ele se tornou.
O problema é que o filme parece satisfeito em apenas pincelar esses momentos. Tudo passa rápido demais, sem o desenvolvimento que merecia. Em vários momentos, tive a sensação de estar assistindo a uma sequência de videoclipes recriando os maiores sucessos do Rei do Pop, quando eu queria enxergar algo além disso.
Eu já conheço o mito. Já conheço os passos de dança, as músicas e os momentos históricos. O que eu queria era conhecer um pouco mais do homem por trás da lenda.
Mas, depois de todas essas observações e críticas, vocês devem estar com a impressão de que eu não gostei do filme ou que estou pegando pesado demais com ele, né?
Bom, não é esse o caso.
Se estou criticando tanto alguns aspectos, é justamente porque me incomodou o fato de o maior artista de todos os tempos ainda não ter recebido uma cinebiografia que vá além do mito e explore com mais profundidade o homem por trás da lenda.
Mas, como fã de Michael Jackson, nada disso chegou a prejudicar minha experiência. Muito pelo contrário. Saí da sessão admirando ainda mais o cuidado da produção em retratar a grandiosidade do Rei do Pop e a força que sua presença tinha dentro e fora dos palcos.
Minhas críticas continuam existindo, e espero que a continuação tenha um pouco mais de coragem para abordar certos temas com maior profundidade e substância.
Ainda assim, elas não foram suficientes para diminuir o quanto me envolvi com a história ou o quanto me emocionei ao revisitar momentos marcantes da trajetória de Michael.
No fim das contas, mesmo com suas limitações, este continua sendo um tributo digno da maior estrela que a música já produziu.
Filme: Michael
Sinopse: A história da superstar pop Michael Jackson, desde seus extraordinários primeiros dias no Jackson 5 até o artista visionário cuja ambição criativa alimenta uma busca implacável para se tornar o maior artista do mundo.
Data de Lançamento: 23/04/2026
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Miles Teller, Laura Harrier, Nia Long, KeiLyn Durrel Jones
O autor é estudante, crítico de cinema e fã de filmes e séries



