Autoridades irlandesas deram início à exumação de restos mortais de cerca de 800 bebês enterrados clandestinamente no terreno do antigo Lar de Mães e Bebês de Tuam, no Condado de Galway, oeste da Irlanda. A instituição, gerida pela ordem religiosa Bon Secours, abrigou por décadas mulheres grávidas não casadas e seus filhos, em um dos capítulos mais sombrios da história do país.
A operação é conduzida por uma equipe internacional de arqueólogos forenses e integra um esforço nacional de reparação às vítimas de abusos cometidos em instituições ligadas à Igreja Católica. “Essa é uma história difícil e angustiante para o país”, declarou o primeiro-ministro Micheál Martin.
Exumação desafiadora
Daniel MacSweeney, encarregado do processo de exumação, afirmou que o trabalho é extremamente complexo. Segundo ele, o local está isolado e sob controle forense. A escavação envolve dificuldades técnicas, como a mistura dos restos mortais, o avançado estado de decomposição e a falta de registros oficiais.
“A escavação é única e incrivelmente complexa”, disse MacSweeney. As famílias das vítimas e sobreviventes poderão acompanhar os trabalhos, que devem durar até dois anos. Participam da operação especialistas da Irlanda, Colômbia, Espanha, Reino Unido, Canadá, Austrália e Estados Unidos.
Os restos mortais que forem identificados serão entregues às famílias. Aqueles que não puderem ser reconhecidos terão um sepultamento digno.
Décadas de ocultamento
O caso começou a vir à tona em 2014, quando a historiadora Catherine Corless revelou a existência de quase 800 certidões de óbito de crianças associadas ao lar, que funcionou entre as décadas de 1920 e 1960. Apenas um sepultamento oficial constava nos registros. As investigações descobriram que os corpos estavam enterrados em uma antiga fossa séptica nos fundos da instituição.
Testes de DNA apontaram que os bebês tinham entre 35 semanas de gestação e 3 anos de idade. A maioria das mortes foi atribuída a infecções respiratórias e gastroenterites.
Em 2021, uma comissão nacional concluiu que cerca de 9 mil crianças morreram em 18 lares semelhantes espalhados pelo país. As instituições serviam para ocultar socialmente jovens grávidas, muitas das quais foram forçadas a entregar seus filhos. A Igreja Católica, que gerenciava essas casas, enfrentou fortes críticas pela negligência e maus-tratos cometidos.
A ordem Bon Secours, responsável pelo lar de Tuam, emitiu um pedido formal de desculpas, reconhecendo que falhou em proteger a dignidade das mulheres e crianças que passaram pela instituição.



