A tentativa da varejista chinesa Shein de transformar o Brasil em um polo de produção para abastecer a América Latina não avançou como o previsto. Anunciado em 2023, o projeto previa investimentos de US$ 150 milhões, parcerias com cerca de 2.000 fábricas brasileiras e a criação de até 100 mil empregos até 2026. No entanto, dificuldades regulatórias, exigências comerciais e problemas logísticos frearam a iniciativa.
A empresa chegou a firmar acordos com 336 confecções brasileiras até o fim de 2023, mas o ritmo diminuiu rapidamente. De acordo com ex-fornecedores, representantes do setor têxtil e dirigentes sindicais, a Shein passou a exigir redução de preços e prazos de entrega mais curtos, condições consideradas inviáveis por parte da indústria local.
Segundo Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), as diferenças estruturais entre os dois países pesaram contra o projeto. “O Brasil tem regras trabalhistas, marcos regulatórios e custos muito diferentes dos da China”, afirmou.
Além disso, a logística em um país de dimensões continentais, a localização interiorana de algumas fábricas e a elevada carga tributária dificultaram a expansão da produção. Executivos ligados à operação brasileira confirmaram que os resultados ficaram abaixo das metas iniciais, sem detalhar números.
Em nota, a Shein reconheceu que a produção local enfrentou obstáculos e que o amadurecimento da iniciativa levou mais tempo do que o previsto. A empresa afirmou que passará a adotar uma postura mais seletiva, priorizando parcerias com fábricas consideradas mais estruturadas.
Levantamento da Reuters junto a sindicatos e associações em diferentes Estados indica que apenas um fornecedor segue produzindo para a varejista no país. A Shein não divulga quantos parceiros mantém atualmente, mas destacou que seu marketplace no Brasil reúne mais de 45 mil empreendedores e vendedores locais.
A pressão para localizar parte da produção aumentou em 2024, após o governo brasileiro impor uma tarifa de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, antes isentas de impostos, com o objetivo de proteger a indústria nacional. Ainda assim, fabricantes afirmam que as exigências da Shein tornaram o modelo pouco viável no contexto brasileiro.
Mesmo sem consolidar um polo produtivo, o Brasil permanece como um mercado estratégico para a empresa. Em 2025, o país tornou-se o segundo maior mercado da Shein no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, impulsionado pelo crescimento das vendas on-line.



