Por José Rocha – Na Manaus pacata dos anos 1950, havia um endereço que muita gente fingia não conhecer — mas sabia exatamente onde ficava. Era o famoso Lupanar Verônica, localizado na Avenida João Coelho, atual Constantino Nery, número 1602, bairro Flores — hoje conhecido como Chapada. O estabelecimento pertencia à maranhense Maria Verônica de Oliveira Sena e ao seu marido José João Gabriel, sogra do José Austernio de Figueiredo, marido de sua filha Olívia filha da Verônica, foi cenário de muitas histórias, algumas registradas nas páginas policiais, outras apenas sussurradas nas madrugadas.
A dona Verônica era uma mulher de pulso firme. Vinda do Maranhão, ninguém sabia ao certo quando chegou a Manaus. Dizem que morava na Avenida Sete de Setembro, número 1293, e há quem garanta — embora eu não possa confirmar — que era mãe de um certo Senhor Figueiredo, envolvido no caso da morte de um engraxate e dono do antigo Restaurante Maranhense, que ficava bem em frente às Lojas Populares, na Eduardo Ribeiro.

Antes de se aventurar no ramo noturno, Verônica foi dona do Bar Bom Futuro, também no bairro Flores. Um lugar sofisticado para os padrões da época: tinha luz elétrica, churrascaria à moda gaúcha, tartarugadas, uma grande piscina, dez apartamentos (será que era rotativo?) e uma orquestra que tocava jazz para embalar os fregueses. O bar durou até 1957, quando foi vendido.
Dois anos depois, em 1959, Verônica mudou de ramo e abriu um prostíbulo. A partir daí, o nome “Boite Verônica” passou a figurar com frequência nas páginas policiais.
Vale lembrar que “Lupanar” vem do latim lupa — loba — termo usado pelos romanos para designar as prostitutas. Era, portanto, o “antro das lobas”. Já “lenocínio”, também do latim, refere-se a quem lucra com a prostituição alheia — o que, aliás, é crime previsto no Código Penal.
Naqueles tempos, a Boite Verônica era um ponto de encontro noturno à beira do Igarapé do Mindu, de águas frias e cristalinas, com a charmosa Praia do Caju logo ali. À noite, o local fervilhava: banhos de igarapé, bebedeiras, música, brigas e amores rápidos. Jovens e até menores de idade fugiam de casa para se aventurar na vida noturna, o que motivava constantes batidas do Juizado de Menores.
O Lupanar foi fechado pela primeira vez pela Polícia Civil entre 1968 e 1972, após inúmeras reclamações dos moradores pelo barulho e as confusões que varavam a madrugada. Mas a esperta Verônica não desistiu: reabriu o local com um novo nome — Hotel Madrid. Na fachada, parecia um hotel respeitável; na prática, continuava sendo o mesmo velho prostíbulo, antepassado direto dos motéis modernos.
Em 1974, veio o fechamento definitivo. Verônica e o marido foram presos e passaram um bom tempo na antiga Penitenciária Pública. Depois disso, o prédio foi cedido para abrigar a Casa do Índio, mas o abandono era tanto que o CIMI chegou a denunciar as péssimas condições do local.
Quando eu estudava no Solon de Lucena, o prédio ainda funcionava como hotel. Mais tarde, em 1982, quando fui morar no Conjunto dos Jornalistas, ainda era possível ver índios habitando o velho casarão.
Com o passar dos anos, o tempo engoliu a história. O prédio foi demolido, e em seu lugar ergueu-se o Shopping Millenium. Lembro bem de acompanhar a construção.
Certa vez, no Bar Caldeira, um senhor já de cabelos brancos chamou um táxi e disse:
— Amigo, me leva ao puteiro Verônica, ali na Constantino Nery!
O motorista, surpreso, respondeu:
— Mas, meu senhor, a Verônica fechou em 1974! Não existe mais!
E o velho retrucou, rindo:
— Existe, sim! Os jovens chamam de Millenium, mas continua sendo o mesmo puteiro!
Hoje, quem passa pela Ponte dos Bilhares, sentido bairro, mal imagina que ali, à beira do Igarapé (esgoto) do Mindu, reinou por tantos anos uma maranhense que fez história em Manaus com seu Lupanar Verônica.
Foto: Jornal do Comércio
Fontes: Recanto das Letras, BLOGDOROCHA, Jornal do Commercio
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