Dedicado aos ex-funcionários do Banco do Estado do Amazonas e aos amigos de tantas boas lembranças.
Por José Rocha – Tive uma relação antiga e afetuosa com o extinto Banco do Estado do Amazonas — o velho e respeitado BEA. Curiosamente, nunca fui correntista da instituição, mas fui “cliente do coração”, pois meu irmão, o bancário José Rocha Martins Filho, trabalhava lá e me abriu as portas de um de seus maiores símbolos de confraternização: o Clube BEASA.
Nos bons tempos, o BEA era o orgulho do amazonense. Atendia o interior todo — do Alto Solimões ao Madeira — e tinha uma clientela fiel. Até que veio o fatídico ano de 2002, quando a onda das privatizações levou o banco a leilão. O Bradesco o arrematou por R$ 182 milhões, num único lance e pelo preço mínimo. As más línguas diziam que o governador Amazonino Mendes “entregou de bandeja” e que só meia dúzia se beneficiou. Verdade ou não, o certo é que milhares de funcionários foram jogados na rua da amargura, e o nosso banco genuinamente amazonense virou apenas mais uma agência de rede.

Lembro bem do meu amigo Ulisses Marques, um auditor competente, desses que conheciam cada centavo que entrava e saía das agências do interior. O Bradesco o manteve por um tempo, só para aproveitar suas informações. Depois, quando acharam que ele já havia ensinado demais, trocaram-no por um rapaz recém-chegado, ganhando metade. Hoje o Ulisses trabalha no Hospital Santa Júlia, estuda na Uninorte e continua meu parceiro nas conversas de mesa de bar — sempre ao som do Nelson Gonçalves e com uma gelada no Bar do Armando.
Mas a minha lembrança mais viva do BEA vem mesmo da BEASA, o clube dos funcionários, lá na Estrada Torquato Tapajós. Era um paraíso de convivência e alegria. Embora fosse restrito aos bancários, minha entrada era liberada — afinal, o porteiro Carlos Cesão era meu peixe.
A turma do meu irmão era das boas: Pangaio (o cearense gaiato), Geraldo Jararaca, José Brito, Júlio Afonso, Humberto Pará, Regnier Lago, Jeovah (zagueiro do América), Amândio Costa, Serafim Meireles, Jorge Nascimento, Pedro Braga, Mauro Hermes, os irmãos Moura, Vanilson Mansour e o compadre Manuel, que começou como office boy e terminou respeitado por todos. Era uma confraria de gente divertida, que sabia trabalhar e, principalmente, sabia viver.

O auge da BEASA foi nos anos 80 e início dos 90. As manhãs de domingo começavam com peladas e se estendiam pela tarde, embaladas por grupos musicais da cidade. À noite, ainda havia forró, samba e paquera sob as luzes do salão. O baile mensal, sempre na última sexta-feira, era um acontecimento! A casa lotava, as bandas — Blue Byrds Band, Os Embaixadores, Carlinhos e seu Teclado Mágico — levantavam o público, e, vez ou outra, aparecia até um cantor nacional para animar a festa.
Nos carnavais, então, aquilo virava um formigueiro humano! Ingressos esgotados, serpentinas voando, confetes grudados na testa e, claro, algumas brigas memoráveis. Meu irmão, que foi tesoureiro numa dessas noites, lembra que certa vez, no meio da confusão, até a maleta com o dinheiro da bilheteria desapareceu. “Até hoje estamos procurando a grana”, ele costuma brincar.
E como esquecer o professor Benedito, o Bené, o Sonson de Maués? Caixa do “Big BEA”, no Boulevard Amazonas, enfrentava filas quilométricas nos dias de pagamento do funcionalismo. Uma vez, um cabocão exaltado passou o dia inteiro berrando que “Mazoca era o cara!”, elogiando o governador. Mais tarde, depois de embolsar o pagamento e entornar umas dez cervejas no Bar da Castanholeira, mudou o discurso: “Mazoca ladrão! Rouba um milhão e só dá trinta pro pobre!” — parecia o Nezinho do Jegue, da novela O Bem Amado, virando a casaca entre um gole e outro.

O tempo passou, o BEA virou lembrança e a BEASA ficou na memória de uma geração. Gente que sabia se divertir, trabalhar e sonhar junto. Hoje, quando passo pela Torquato, parece que ainda escuto, ao longe, o som de um teclado mágico e o burburinho das mesas cheias.
Era o tempo bom da juventude, dos amigos verdadeiros e dos bailes que terminavam ao nascer do sol.
Um brinde, então, aos ex-funcionários do Banco do Estado do Amazonas e aos frequentadores da inesquecível BEASA.
Tempos bons que não voltam mais.
🏛️ Nota Histórica
O Banco do Estado do Amazonas (BEA) foi fundado em 1947 e tornou-se símbolo da economia regional, com presença em todo o interior do Estado. Seu clube social, a BEASA, localizada na Estrada Torquato Tapajós, foi um dos espaços mais animados da vida social manauara nas décadas de 1980 e 1990. O BEA foi privatizado em 2002, sendo incorporado pelo Bradesco.
Fotos do arquivo Pessoal: Mauro Hermes
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



