Por José Rocha – A cada quatro anos, o Brasil para. Para de trabalhar, de brigar, de viver — para assistir à Copa do Mundo. Mas de todas as edições que já nos fizeram parar, nenhuma ficou tão gravada na memória dos amazonenses quanto a de 1970, quando o Brasil sagrou-se tricampeão no México. E a razão não está apenas na conquista. Está nos dois jogos amistosos que a Seleção Canarinho fez em Manaus antes de embarcar rumo à glória.
Era o dia 5 de março de 1970. A cidade tinha um pretexto duplo para explodir de alegria: a inauguração oficial do Estádio Vivaldo Lima e a presença da Seleção Brasileira em campo amazonense. O trânsito engarrafou por duas horas — uma eternidade para a época. Crianças e adolescentes desmaiaram pelo caminho, não de emoção, mas por terem saído de casa cedo demais, com o estômago vazio e o sol a pino. Torcedores invadiram as cadeiras numeradas. Uma comporta mal fechada permitiu que a chuva alagasse um dos vestiários. Carteiras foram roubadas, houve brigas nas arquibancadas, colisões do lado de fora. E o calor — aquele calor de Manaus que não pede licença.

Nada disso importou. A festa foi maior que o caos. Os juízes Airton Vieira de Moraes e Arnaldo César, responsáveis por apitar as partidas, saíram impressionados. Elogiaram o estádio, compreendendo que ainda faltavam acabamentos, e chegaram a declarar que o vestiário dos árbitros era melhor do que os do Maracanã, do Mineirão e do Beira-Rio. Alta recomendação, vinda de quem conhecia os templos do futebol brasileiro.
O primeiro jogo foi às 14 horas, com o sol no alto. A Seleção Brasileira entrou em campo, aqueceu, cumprimentou o público — e a Seleção do Amazonas não apareceu. Zagalo irritou-se e mandou seus jogadores de volta ao vestiário. Quando os brasileiros voltaram, dez minutos depois, os amazonenses já estavam em campo. Troco na mesma moeda: uma tentativa de sufocar os visitantes com o calor e os raios implacáveis equatorial.
Não adiantou. Um pênalti mal cobrado por Antônio Piola, um lance duvidoso, uma jogada de azar e uma brincadeira de zagueiro selaram a derrota da seleção local por 4 a 1. Dadá Maravilha, aquele centroavante de sorriso largo e gols certos, fez três. O quarto foi contra. O único gol dos amazonenses ficou por conta de Laércio.

Mas houve um momento especial nessa tarde tórrida: Zagalo convocou quatro jogadores locais para atuar no segundo tempo — Catita, do Rio Negro; Evandro, do Olímpico; Pretinho, do Nacional; e Pompeu, do Fast. Alguns já penduravam as chuteiras. Mesmo assim, vestiram a camisa amarela e ganharam o reconhecimento da imprensa nacional. Para um amazonense de 1970, era como tocar o céu com as mãos.
O segundo jogo começou às 16h05. A Banda do Instituto Benjamin Constant abriu a cerimônia. Às 16h10, o governador Danilo de Matos Aerosa entrou em campo para as solenidades. Às 16h28, o Rei Pelé recebeu homenagens da torcida. Às 16h33, o governador deu o chute inicial simbólico a favor do Brasil. E às 16h35, a bola rolou de verdade.
Rolou — mas a festa estava nas arquibancadas. Centenas de repórteres e fotógrafos cercaram os craques como uma revoada, atrasando o início da partida. O jogo terminou quinze minutos depois das 18 horas, já no escuro, com quase nenhuma visibilidade. Futebol às cegas, sob a euforia da noite amazônica.
Os gols brasileiros foram de Rivelino, Paulo César Caju, Carlos Alberto e Pelé. O Rei entrou aplaudido, jogou abaixo do esperado, foi vaiado — e quando marcou, voltou a ser ovacionado. Dedicou o gol à torcida do Amazonas. Era Pelé: sabia que o povo sempre perdoa um gol bonito. Mário fez o gol de honra dos amazonenses.
Para Zagalo, o primeiro jogo não valeu nada. “Estava muito desfalcada, os jogadores fora de posição, calor excessivo — aquilo não era nem treino”, disse à imprensa, com a frieza técnica que o caracterizava. Mas sobre o segundo jogo, ele abriu um sorriso raro: “Gostei muito. Foi o melhor treino desde que a seleção foi convocada. Pela primeira vez vi a defesa jogar dentro do padrão que pretendo impor. O bloqueio de Clodoaldo, Rivelino e Paulo César foi quase perfeito.”
E as seleções do Amazonas? “Foram melhores do que eu esperava”, admitiu — acrescentando, com a diplomacia necessária, que “por razões óbvias” não poderiam ser adversários suficientemente fortes para exigir muito dos campeões em preparação.
Três meses depois, o Brasil levantava a taça no México.
Mas em Manaus, a copa já tinha começado naquele 5 de março, quando a cidade parou, suou, brigou, desmaiou e aplaudiu de pé — porque futebol, aqui, sempre foi mais do que um jogo.
Fonte: Trechos do livro “O Dia em que Manaus Parou: New York Cosmos x Fast Clube no Vivaldão”, de José Rocha.
Fotos: Jornais
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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