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Ressuscitando o “Zé Mundão de Manaus”

Por José Rocha – Quem viveu a juventude manauara dos anos 70 certamente ouviu falar do lendário Zé Mundão, aquele caboclo festeiro, boa praça e cheio de histórias pra contar. O Zé era figurinha carimbada nos bailes do Bancrevea Clube, na Getúlio Vargas, o reduto dos apaixonados pelas músicas lentas, das luzes negras e dos amassos ao som de The Blue Birds e Os Embaixadores. O problema, dizia ele, era o final da festa — quando acendiam as luzes e todos cantavam: “Ai, ai, ai, ai, está chegando a hora…” — bem no auge do romance.

Um dia, no baile “Vereda Tropical”, do Sheik Clube, o Zé foi filmado dançando com uma gata e acabou virando estrela sem querer num comercial da TV Ajuricaba. A cidade inteira o reconheceu, e o “pé de valsa do Sheik” não teve paz nem em casa. Ficou de molho por um tempo, mas logo voltou à ativa, agora como ritmista da Unidos da Getúlio Vargas, tocando surdo sob o olhar desconfiado do Mestre Bola, que só tolerava o compadre depois de umas doses do “padrinho Acrísio”, a bebida artesanal do seu Acrísio, o químico do Guaraná Baré.

O Zé também se gabava do seu Fusquinha, comprado com suor e paciência. Chamava o carro de “suado”, e nele partia com os amigos rumo aos lupanares mais famosos: Maria das Patas, Saramandaia e Piscina Club. Certa noite, liso e desanimado, achou um bolo de dinheiro no chão do Posto Cinco — 860 cruzeiros! Ficou doido de alegria. Mandou vir cerveja, churrasco e duas “primas escolhidas a dedo”. A noite prometia, até que acordou no susto, com a dona da casa sussurrando: “Corre, meu macho chegou — ele é matador!”.

Zé e o amigo Branco pularam o muro e fugiram pela rua detrás. Quando foram conferir o bolso, nem um conto restava. Tinham sido passados pra trás pelas belas golpistas. Mas, para alívio geral, Branco lembrou: “Zé, tu guardou parte da grana embaixo do tapete do carro, lembra?”. Lá estavam os quatrocentos contos salvos!

O Zé caiu na gargalhada e sentenciou:
— Valeu, Branco! Sexta que vem tem mais, mas dessa vez, é no banho tcheco, nada de barangas!

E assim ficou eternizado o Zé Mundão, personagem das noites quentes de Manaus — galhofeiro, sortudo e, acima de tudo, dono da alegria que o tempo não conseguiu apagar.

Foto: Bancrevea Clube, ano 1978.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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