Faleceu na última sexta-feira(14), Charufe Nasser, ícone da gastronomia amazonense. Na juventude, ela morou em um casarão situado na esquina das ruas Monsenhor Coutinho e Ferreira Pena. O meu livro O Tesouro Escondido no Casarão Vernier foi inspirado justamente nessa casa, hoje abandonada. Charufe escreveu A Sultanesa do Seringal, onde descreveu como era sua residência na época da fartura. A seguir, apresento uma adaptação que fiz a partir de suas memórias:
“O casarão passou por vários proprietários até ser comprado por um próspero comerciante libanês da família Al Nasser. Uma de suas filhas publicou suas memórias, onde descreveu em detalhes o imóvel em que morou na juventude: – Quando eu tinha treze anos, surgiu uma oportunidade extraordinária: com uma prole muito grande, meu pai decidiu mudar-se para uma casa maior. O Casarão Vernier foi a melhor escolha. Os antigos proprietários levaram poucas coisas, pois meu pai comprou a casa com muitos móveis e objetos dentro. Cada um de nós escolheu seu quarto, que já estava pronto, com cortinas, lustres de cristal, abajures nas mesinhas de cabeceira, penteadeiras com espelhos franceses e guarda-roupas de madeiras nobres. O piso do andar superior, onde ficavam os quartos, era composto por tábuas corridas, alternando peças escuras e claras, semelhante ao do Teatro Amazonas e ao do Ideal Clube. No andar térreo, logo na entrada, deparávamo-nos com um belo jardim coberto por um caramanchão de ferro repleto de vibrantes buganvílias, iguais às da Praça da Saudade, e, no centro, um chafariz com luzes coloridas. Ao lado do chafariz, havia um enorme pinguim de gesso. Esse conjunto bucólico causava uma impressão única. Na varanda voltada para o jardim, havia cadeiras de balanço de ferro batido. Ao entrar no salão, com piso todo em mármore de Carrara, encontrávamos a sala de visitas, onde meu piano — um Essenfelder que ganhei aos oito anos de idade — ocupava lugar de destaque. A casa era ponto de encontro da juventude para dançar, realizar reuniões, organizar projetos culturais e ensaios. Dançávamos ‘Twist’, com movimentos de quadril e torções rápidas ao som de músicas como ‘Let’s Twist Again’; ‘Rock and Roll’, que combinava blues, country e gospel; ‘Hully Gully’, com passos rápidos de pés e braços; ‘Cha-Cha-Cha’, com seus movimentos ágeis e ritmo marcado de “2, 3, 4 e 1”; e o ‘Tango’, a dança elegante e apaixonada de compasso 4/4. Ali aconteciam as mais belas serenatas, tocadas por músicos amigos e cantadas em coro, com temas sobre a lua, as estrelas, o amor e a saudade. Elegantes tertúlias promoviam debates, troca de ideias e enriquecimento cultural em literatura, arte, política e filosofia. Fartos almoços eram servidos: entradas variadas, peixes como tambaqui e pirarucu, carnes de primeira, sobremesas e sucos de frutas regionais. Também havia animadas rodadas de ‘Pif Paf’, jogado com 52 cartas, formando trincas ou sequências para bater. Recebíamos grandes amigos, que ficavam até altas horas, e o jantar sempre trazia as melhores iguarias. Nós, os jovens, dividíamos o tempo entre o pátio e o jardim, conversando ou cantando ao som do piano tocado por um amigo músico, ou dos violões, cavaquinhos e atabaques dos seresteiros. À meia-noite, um farto lanche era servido, com coalhada, ovos fritos, sardinhas portuguesas enlatadas e azeitonas gregas, acompanhados de pão quente vindo direto do forno da Padaria do Sujo, ao lado do Rio Negro Clube.
Eu tinha o desejo de enviar a Charufe Nasser um exemplar desse livro, mas não houve tempo, pois ainda não consegui publicá-lo em versão física — disponho apenas da edição em PDF.

Minha profunda condolência à família enlutada. Que Charufe esteja ao lado do Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.



