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Nestor Nascimento, Alma Negra que Nunca Será Esquecida

Por José Rocha – Ontem, 20 de novembro, data que recorda a morte de Zumbi dos Palmares, não me vem apenas à mente a luta por justiça racial, inclusão ou políticas públicas contra as desigualdades históricas do Amazonas e do Brasil. O que me invade mesmo é a lembrança viva de Nestor Nascimento, uma das figuras mais marcantes da nossa terra — talvez o maior líder negro da história do Amazonas, defensor incansável dos direitos civis.

Tive o privilégio de conhecê-lo. Foi meu professor de História e Literatura Portuguesa no antigo Curso Dinâmico, aquele prédio já demolido da Avenida Getúlio Vargas, famoso por preparar gerações inteiras para a Universidade do Amazonas. Ali, entre livros, cadernos e o aroma de giz, aprendi não só literatura, mas a grandeza silenciosa de um homem comprometido com seu povo.

Nascido em 14 de dezembro de 1947, Nestor fundou o Movimento Alma Negra – MOAN, vindo de uma família tradicional da Praça 14 de Janeiro. Era dali, do coração do bairro, que articulava cultura, política e resistência: fundou a Associação dos Amigos e Moradores da 14 e ajudou a erguer a querida Escola de Samba Vitória Régia.

Formou-se em Direito pela UA, exerceu cargos públicos e ainda se aventurou pelo jornalismo, tanto no Rio de Janeiro quanto em Manaus. Seu conhecimento corria frouxo entre tribunais, redações e botequins — onde quer que houvesse gente.

Como advogado, atuava pro bono, para o bem do povo. Defendia prostitutas, negros, indígenas e todos os que viviam às margens. Não cobrava um centavo; cobrava apenas que o ser humano fosse tratado com dignidade. Era assim: firme na palavra, doce no trato, justo no coração.

Seu trabalho ecoou longe. Foi entrevistado pela Voz da América, nos Estados Unidos, e lá o reconheceram como um dos mais ilustres defensores dos direitos civis do Brasil. Para nós, amazônidas, ele já era tudo isso muito antes.

Guardo lembranças dos nossos longos papos nos bares tradicionais de Manaus. Ele era daquelas figuras que, quando chegavam, faziam os outros endireitarem a postura — não por medo, mas por respeito. Além de ter sido meu professor, era também amigo de meu pai. Conversávamos sobre política, música, história e sobre a própria alma da cidade.

Visitei-o nos últimos dias de sua vida, em 2002. Morava com um parente numa pequena vila da Avenida Constantino Nery. Partiu pobre de bens, mas riquíssimo de espírito — dessas riquezas que nenhuma moeda compra e nenhum tempo apaga.

Ontem, em sua homenagem, caminhei pelo Parque Nestor Nascimento, entre as ruas Taramã e Japurá. O espaço está bonito: bancos limpos, quadra de areia, chuveiros, parquinhos, crianças correndo. Um lugar que respira convivência — exatamente como ele gostaria.

Hoje, feriado, tem festa no Quilombo do Barranco de São Benedito. Pretendo ir lá, saborear uma feijoada comunitária, ouvir muito batuque e samba, e deixar que a memória faça o resto. Porque recordar Nestor é celebrar uma herança maior que qualquer bandeira: é celebrar a dignidade.

Nestor Nascimento, meu amigo, o eterno presidente do Movimento Alma Negra — a cidade não te esquece.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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