Por José Rocha – Em tempos idos, o prédio do megaempresário Joaquim Gonçalves Araújo dominava boa parte da Rua Marechal Deodoro e alcançava também a Avenida Eduardo Ribeiro. Entre as duas vias, existia uma passagem conhecida como Galeria Central, onde funcionavam diversas lojas, entre elas o supermercado PAG LEV e o famosíssimo Salão Fígaro Del Rey, um nome que, até hoje, permanece vivo na lembrança dos manauaras mais antigos.
O meu primeiro e o meu terceiro emprego foram justamente na Marechal Deodoro, onde o metro quadrado era o mais caro de Manaus. Ali se concentravam os maiores e melhores estabelecimentos comerciais, bancos, escritórios de profissionais autônomos, o prédio dos Correios e vários imóveis do próprio J.G. Araújo — que, para se ter ideia do requinte, mandou revestir a calçada em frente com borracha.
Tudo naquele lugar me chamava atenção. Mas o que eu mais gostava era de entrar na Galeria Central apenas para observar os barbeiros fazendo a barba dos clientes: o freguês sentava-se numa cadeira antiga, de base metálica e muito bonita, ficava relaxado enquanto recebia a toalha quente no rosto; o barbeiro espalhava o creme de barbear e afiava a navalha — era a parte que mais me metia medo, pois qualquer descuido e o sangue jorrava. Outros tantos iam só cortar o cabelo, como eu, caboclo de barba rala desde menino.
Uma curiosidade: o nome “Fígaro Del Rey” significa, em bom português, “O Barbeiro do Rei”, algo que remete à nobreza, distinção e requinte. Fígaro é um personagem célebre de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, e de As Bodas de Fígaro, de Mozart. Na ópera, Fígaro é esperto, comunicativo e querido — o típico barbeiro que corta cabelo, faz barba, dá conselhos e conhece todo mundo da cidade. Não é à toa que tantas barbearias antigas adoram carregar esse nome.
A fotografia que emoldura esta crônica foi enviada pelo amigo Anselmo Chíxaro, frequentador assíduo daquela barbearia. Nela, vemos um grande espelho ocupando toda a parede, refletindo frascos de loções, pentes, navalhas, toalhas e produtos de barbear, todos organizados em prateleiras de vidro e madeira. O ambiente é estreito e funcional, carregado daquele charme das décadas de 1950 e 1960: bancadas polidas, utensílios metálicos e o clima acolhedor dos estabelecimentos que faziam parte do cotidiano da velha Manaus.
O barbeiro que aparece no registro fotográfico é Osmar Ribeiro de Sena, que trabalhou muitos anos no salão do Valter e do Maranhão, ao lado de seu contemporâneo Pedro da Silva, na Rua Lima Bacury. Na imagem, um cliente lê o jornal enquanto o barbeiro, sereno e preciso, exerce sua rotina feita de técnica, paciência e boa conversa — política, futebol, histórias da cidade. Ali passavam trabalhadores, comerciantes e boêmios antes de seguir para os bares e cinemas das redondezas. A barbearia possuía um verdadeiro “público cativo” e permaneceu na memória coletiva da cidade, pois não era apenas um salão: era um ponto de convivência urbana.
Hoje, existem centenas — talvez milhares — de barbearias em Manaus, desde o conhecido “Pelar Porco”, nas redondezas do Porto, até os mais sofisticados Coiffeur, Barber ou Barber Shop dos shoppings mais chiques. Mas o nosso querido e antigo Salão Fígaro Del Rey continuará guardado na lembrança dos manauaras raiz que tiveram o privilégio de conhece-lo.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



