Por José Rocha – Carrego comigo o século passado como quem guarda um antigo álbum de fotografias: amarelado nas bordas, mas vivo no coração. Sou filho do século XX, nascido quando Manaus ainda tinha cheiro de chuva, de feira e de igarapé correndo livre.
Para muitos, a conta dos séculos é um labirinto. Mas ela é simples como o calendário da benzedeira:
— O século XIX foi de 1801 a 1900; nele nasceu o Teatro Amazonas, em 1896, iluminando a selva.
— O século XX, o nosso, começou em 1901 e terminou em 2000, levando consigo histórias de infância, bondes que nunca vimos, mas que imaginamos, e uma cidade que cresceu mais rápido do que a gente.
— O século XXI se estende de 2001 a 2100 — longo demais para os nossos passos.
O IBGE diz que a vida brasileira dura em média 76,4 anos. Para nós, sessentões e setentões, cada amanhecer é presente embrulhado pelo próprio Deus. Abrir os olhos é vencer estatísticas. É ganhar um capítulo extra no livro que pensávamos ter terminado.
Mas há aqueles que desafiam o relógio. O mestre Flávio de Souza é um deles. Aos 95 anos, caminha devagar pelas ruas, compra o que precisa, toma sua cervejinha e dedilha o violão como quem conversa com a eternidade. É a prova viva de que o tempo, às vezes, perde a pressa diante de certas almas.
Nós, que viemos do século que já se foi, seguimos aqui — firmes, gratos e atentos ao encanto dos dias que restam. E enquanto houver sol, café quente e lembranças para contar, estaremos vivos demais para que o século atual nos apague.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



