Uma técnica amplamente utilizada na purificação de sangue para transfusões será avaliada como possível vacina experimental contra o câncer de ovário. O método, conhecido como Mirasol, combina luz ultravioleta e riboflavina (vitamina B2) para inativar microrganismos e agora passa a ser testado como estratégia para estimular o sistema imunológico no combate à doença.
A pesquisa é conduzida por cientistas do centro City of Hope, na Califórnia. A proposta consiste em coletar células tumorais removidas durante cirurgias, tratá-las com luz ultravioleta e riboflavina e, após a inativação, reintroduzi-las no organismo da própria paciente, com o objetivo de induzir uma resposta imunológica contra o tumor.
Antes dos testes em humanos, a abordagem foi avaliada em estudos com camundongos e cães, que apresentaram resultados positivos, embora modestos. Com base nesses dados, os ensaios clínicos em pessoas foram autorizados nos Estados Unidos em julho de 2025 e tiveram início neste ano.
O estudo busca verificar se a técnica pode funcionar como uma vacina terapêutica personalizada, especialmente para reduzir o risco de recorrência da doença quando associada a outros tratamentos. Nesta fase inicial, os pesquisadores avaliam principalmente a segurança do método e sua capacidade de estimular o sistema imunológico.
Segundo o químico Ray Goodrich, um dos desenvolvedores do Mirasol e cofundador da empresa PhotonPharma, responsável por adaptar a tecnologia para uso oncológico, a expectativa é que a abordagem ajude a retardar ou impedir o retorno do câncer. “A esperança é que isso funcione em combinação com outras terapias”, afirmou à revista Science.
O ensaio clínico de fase 1 pretende recrutar oito pacientes com câncer epitelial de ovário recorrente. Todas passarão por cirurgia para retirada dos tumores, cujas células serão tratadas e combinadas a um adjuvante imunomodulador para a produção de uma vacina personalizada. Cada participante receberá três doses, com monitoramento de efeitos colaterais e resposta imunológica.
O acompanhamento inclui exames de sangue para avaliar a atividade do sistema imunológico e a evolução da doença ao longo de várias semanas. A conclusão preliminar do estudo está prevista para junho, enquanto os resultados finais devem ser divulgados até dezembro deste ano.
O método Mirasol é utilizado há anos na segurança transfusional por sua capacidade de danificar o DNA e o RNA de microrganismos, impedindo sua reprodução. Agora, os pesquisadores investigam se esse mesmo processo pode ajudar a gerar novos antígenos tumorais, facilitando o reconhecimento das células cancerígenas pelo sistema imunológico.



