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14 de Janeiro – A Data que Ficou para a História

Por José Rocha & ChatGPT

Há dias que a cidade guarda na pele.
14 de janeiro é um deles.
Nasceu em revolta, cresceu em samba,
fez morada na Praça 14 —
luz de quilombo urbano, batuque de janeiro a janeiro.
No mesmo dia, muitos anos depois,
uma caldeira explodiu…
mas o milagre foi maior que o susto.
Do choque nasceu o Caldeira,
boteco de histórias, de vozes, de violões.
Ali passaram Vinicius, Jamelão, Silvio Caldas,
ali ficaram fotos, bilhetes, risos e memórias.
Ali ficou Manaus inteira.
E eu, que caminho entre lembranças e pesquisas,
vejo que certas datas não passam.
Elas permanecem.
Elas resistem.
Elas celebram.
14 de janeiro é assim:
um dia que se repete,
um dia que não envelhece,
um dia que é puro coração manauara.

Há datas que passam silenciosas pelo calendário e há outras que fazem questão de deixar marca. Em Manaus, o dia 14 de janeiro pertence a esse segundo grupo — uma data que teima em voltar, década após década, sempre carregando uma história nova para contar.

Em 1892, a cidade assistiu a uma revolta popular que resultou na derrubada do governador Gregório Thaumaturgo de Azevedo. Entre gritos, tensões e esperanças, nasceu um bairro: a Praça 14 de Janeiro. E foi ali, naquele pedaço vibrante da cidade, que a cultura negra maranhense encontrou morada, graças à chegada do então novo governador, o maranhense Eduardo Ribeiro, que incentivou famílias negras a povoarem a região. Hoje, com orgulho, o bairro é reconhecido como o segundo Quilombo Urbano do Brasil.

A Praça 14 é samba, é luta e é resistência. Seu hino não poderia ser diferente:

“Bate, bate forte batuqueiro / o samba na 14 é de janeiro a janeiro.”

É a voz do GRES Vitória Régia, confirmando aquilo que todo manauara sabe: ali é o berço do samba da cidade.

Tive o privilégio de conhecer o querido Nestor Nascimento, fundador do Movimento Alma Negra — um amigo de longa data. Por ser filho de afrodescendente, sempre me senti profundamente ligado àquela gente, àquela história e àquele chão que pulsa memórias.

Mas o 14 de janeiro ainda nos reservaria outro episódio marcante — já em 1970, quando a explosão da caldeira da Santa Casa de Misericórdia assustou a cidade inteira. Os destroços voaram longe, mas, por milagre, nenhum frequentador do famoso Bar Nossa Senhora dos Milagres foi atingido. Naquele instante, o destino rebatizou o local: nascia, ali, o lendário Bar Caldeira.

Fundado em 1963 por um casal lusitano, o bar homenageava uma santa encontrada boiando no mar, no século XVI, na Ilha do Corvo, nos Açores. O nome mudou, mas a alma permaneceu: o caldeirão humano que reunia políticos, empresários, poetas, funcionários públicos, artistas e trabalhadores do centro de Manaus.

Com a chegada da administração de Carbajal Gomes, o bar ganhou fôlego de eternidade. Instituiu-se oficialmente o aniversário no dia 14 de janeiro, surgiram apresentações musicais de terça a sábado e, aos domingos, o palco ficou reservado à “prata da casa”. Vieram também novos eventos, novas tradições e a preservação cuidadosa da essência do lugar.

A famosa Calçada da Fama foi criada para celebrar ícones que por lá passaram:

Silvio Caldas, Jairzinho, Vinicius de Moraes, Jamelão e Kátia Maria — a primeira mulher a frequentar o bar.

Além disso, um casarão ao lado foi alugado para abrigar cozinha certificada, banheiros, espaço climatizado e encontros da velha guarda. Tudo para manter vivo aquele reduto de histórias e melodias.

E por falar em Vinicius… O Poetinha esteve ali, sim, deixou bilhete, fotos e saudade. Por causa dele, os jovens e os cariocas que chegam à cidade passaram a chamar carinhosamente o lugar de “O bar do Vinicius de Moraes em Manaus”.

O reconhecimento oficial veio depois: o Bar Caldeira, junto com outros dois bares tradicionais, foi declarado Patrimônio Cultural e Imaterial de Manaus, graças à iniciativa do deputado Bosco Saraiva.

Eu? Sou frequentador assíduo — e, como pesquisador e cronista da cidade, já me considero parte dessa história que se desenrola entre mesas, risos, copos e memórias.

Assim, o 14 de janeiro segue vivo. Em 1892 ou em 1970, em samba ou em caldeira, é uma data que insiste em nos lembrar que Manaus é feita de gente, de luta, de música e de milagres.

E que certas datas, como certos lugares, não passam: permanecem.

Parabéns Praça 14 de Janeiro & ao Bar Caldeira.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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