Por José Rocha – O título pode soar estranho para muita gente — e talvez nem faça sentido para quem não conhece um pouco da história da nossa cidade — mas tem tudo a ver com Manaus e com os tempos em que soltar papagaio era uma arte. “Loló” era o apelido do Roberto, descendente de portugueses, uma lenda viva, um dos maiores fabricantes e empinadores de papagaios de papel — os famosos famões — que Manaus já teve.
Havia um dito popular nos tempos bons da cidade: “Papagaio come o milho e o periquito leva a fama”. E foi exatamente isso que aconteceu: Loló era o melhor de Manaus, mas quem ficou famoso foi o primo — o “Russo”.
Quem passa pela Avenida Joaquim Nabuco, logo depois da Rua Lauro Cavalcante, e vê uma placa de “vende-se” pendurada numa casa estilo suíço (a do Manasses, filho do senhor Isidoro, em frente ao Bolo Confeitado), não imagina que ali existe uma vila. No final dela mora o famoso Loló, o artesão dos papagaios da “Cidade Sorriso”, hoje com idade avançada, mas ainda vivo para contar as histórias dos tempos bons vividos pelos manauaras setentões e oitentões.
Tive o privilégio de visitá-lo, acompanhado de meu amigo Ari Neto. Era um projeto antigo que, finalmente, virou realidade. Queríamos registrar para os manauaras de hoje e de amanhã que o verdadeiro mestre dos papagaios foi o Loló — superando o primo Russo, que ficou conhecido nas décadas de 1960 e 1970.
A história é longa, mas serei breve. Depois entra, certamente, no meu livro O Igarapé de Manaus — a obra que nunca acaba e que talvez nunca saia (risos).
Ari Neto, o “Bola de Ouro” da imprensa esportiva amazonense, pediu-me para acompanhá-lo numa entrevista com o mestre Loló. Um ícone das décadas de 60 e 70, quando fabricar e soltar papagaios era mais do que brincadeira: era cultura.
Filho de portugueses, o mais velho de dezesseis irmãos, Loló cresceu quando seu pai ainda era dono de toda aquela área que depois virou a vila. Muito jovem, virou empreendedor: comprava papagaios prontos de um sujeito chamado “Mucura” e de outro fornecedor na Terceira Ponte da Sete de Setembro, revendendo tudo na própria Sete. Pouco tempo depois, decidiu fabricar seus próprios papagaios — e nunca mais parou.
O primo Russo ficou famoso, mas quem ensinou o ofício foi ele: o Loló. Fabricava com esmero, fazia o melhor cerol de Manaus, e era temido nos céus da cidade. Com sua linha número 1, mil e duzentas jardas de cerol fino, alcançava voos que iam das proximidades da casa do Josué da Difusora (Rua João Coelho) até os papagaios rivais do São Raimundo, Glória e Santo Antônio.
Coisa para poucos.
Era amigo do meu pai, o “Rochinha”, do Abidias “Bodó”, do Nelson Português e do Isaías, e de toda a turma da Rua Igarapé de Manaus e adjacências. Gostava de pular na água da Primeira, Segunda e até da temida Terceira Ponte (a de ferro) — sempre de cabeça. Meu Deus!
Loló lembra da época em que começaram a surgir papagaios com “rabiola de pano” e até com gilete na ponta para cortar os rivais na “trança”. Chegou a ver papagaios feitos com madeira de cedro.
Ele mesmo foi pioneiro no uso das talas de buritizeiro, com rabiolas de papel.
Para isso, pegava o bonde rumo à Chapada para recolher folhas secas de buritizeiro, passando a madrugada inteira raspando e escolhendo as melhores. Linha, cola e papel de seda comprava na Loja Renascença, do senhor Armindo Dias, e em outras casas da Sete.
O cerol? Feito com vidro pilado nos trilhos dos bondes — tradição manauara.
Manaus era pacata, diz Loló. Todo mundo se conhecia. Médicos, doutores, políticos e figuras conhecidas compravam seus papagaios — sempre dele ou do primo Russo. Mas a habilidade, todos reconheciam, era do Loló.
Tão famoso que fabricava até cento e cinquenta papagaios por semana — e vendia tudo antes do fim de semana.
Fazia também as “maçarocas” com o melhor cerol da cidade. Varava a madrugada cortando papel de seda, montando as estruturas, criando desenhos que surgiam na cabeça — coisa de artista.
Hoje, aos oitenta e oito anos, ele conta que até o ano passado ainda vendia papagaios para clientes antigos.
Resolveu se aposentar, mas guarda com carinho um punhado de linhas, papéis de seda e talas — “vai que volta em 2026”, diz sorrindo.
O terreno onde mora parece um sítio: árvores por todos os lados, silêncio total, a casa principal e outras onde vivem filhos, netos e bisnetos. Uma maravilha escondida no coração de Manaus — e que eu e o Ari tivemos o privilégio de conhecer.
O tempo passou. Papagaio virou “pipa”, “teatro” virou “tiatro”, “tu” virou “voce”. Muita coisa mudou. Mas ninguém apaga da memória os papagaios de papel do famão Loló — pedacinhos coloridos da infância manauara que continuam voando dentro da gente.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



