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Cine Vitória: Vida e Morte

Por José Rocha – Há histórias que nascem grandes e morrem silenciosas. O Cine Vitória, lá em Educandos, é uma delas — e quem conta é a própria Manaus, testemunha de seus aplausos e de sua última noite apagada. Uma reportagem do Jornal A Crítica de 10 de maio de 1973, no Caderno Cidade, resgatou essa memória através de um homem simples, o cearense Raimundo Pirera Marques, funcionário que viu tudo: da construção ao último suspiro daquele templo de luzes.

Raimundo lembrava com carinho que o Cine Vitória fazia parte da cadeia de cinemas do lusitano Adriano Bernardino, um homem que construiu seu império à base de suor, lágrimas e sangue. Dono do Guarany, Avenida, Ideal e Ipiranga, deixou este mundo em 1961, passando o bastão aos filhos, Mário e Adriano Bernardino Filho, que mais tarde ergueram o Cine Palace, no Boulevard Amazonas.

Dizem que, quando o Vitória ainda estava nascendo, por volta de 1954, um curioso se aproximou do velho Adriano e perguntou se ele tinha enlouquecido ao querer erguer um cinema daquele tamanho em Educandos. Adriano nada respondeu — e fez. E fez grande: 1.116 cadeiras, na movimentada Rua Leopoldo Peres, a alma do bairro. Coisa de visionário… ou de louco, como cochicharam na época.

No dia 11 de dezembro de 1954, a inauguração foi uma festa: casa lotada, bairro inteiro presente, todo mundo encantado com o filme inaugural, Floresta Petrificada. Era o nascimento de um gigante cultural para a zona sul.
Raimundo morava ali mesmo, no prédio. Era gerente, vigia, anfitrião de artistas — depois dos shows, era na cozinha dele que o cafezinho fumegava. Recordava que, nos dias de Teixeirinha e Waldik Soriano, o Cine Vitória quase saía do chão de tanta gente. Nunca houve público maior em seus dezoito anos de funcionamento.

Em noites de estreia ou grandes apresentações, a rua simplesmente travava. Fila, gritaria, risos, vendedores ambulantes, meninos correndo — e Raimundo, com seu jeito firme, apartando os mais abusados que queriam aprontar na porta. Mas era respeitado. Educandos sabia reconhecer quem cuidava do que era do povo.

Mas o tempo, esse inimigo silencioso, começou a corroer as paredes do cinema. A televisão entrou nas casas e virou concorrente imbatível. As fiscalizações rígidas do Juizado de Menores, as proibições de reprises, a Prefeitura exigindo reformas caras… tudo isso foi pesando. Os donos, desmotivados, decidiram parar a luta.

O prédio acabou vendido ao Grupo Moto Importadora, que transformou o cinema em loja de móveis e eletroeletrônicos. O bairro não aceitou calado. Na fachada do Vitória, alguém rabiscou a frase que ecoou como lamento:
“O cinema não devia fechar. É de utilidade pública.”
Não adiantou. A batalha estava perdida.

No Dia do Trabalhador, 1º de maio de 1973, exibiu-se o último filme: Comandos. Plateia pequena, tristeza grande. Frequentadores e funcionários sabiam: aquilo não era só uma sessão, era uma despedida. Um adeus.
No dia seguinte, o salão imenso estava vazio. Silêncio absoluto. Apenas alguns funcionários desmontavam cadeiras, retiravam as vigas do palco — palco onde tantos artistas brilharam. Raimundo Pirera, olhos marejados, fechou a porta pela última vez e seguiu trabalhar no Cine Guarany, que anos depois teria o mesmo destino amargo.

O Guarany virou ruína para dar lugar a um prédio sem charme do Banco Itaú. O Vitória foi sendo ocupado por vários estabelecimentos, até perder totalmente sua fachada original. Assim, pouco a pouco, apagaram os cinemas da nossa infância e adolescência. Restaram apenas as lembranças dos moradores antigos, reavivadas vez ou outra pelos saudosistas e historiadores nas redes sociais do século XXI.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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