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Empreendedores Japoneses na Amazônia

Por José Rocha – Eles vieram de uma terra pequena em tamanho, mas grande em história: apenas 369.450 km², montanhosa, cercada pelo mar e com poucos recursos naturais. Era o Japão – a famosa Terra do Sol Nascente –, de onde partiram para atravessar meio mundo até chegar ao maior estado do Brasil, o Amazonas, com seus imensos 1.559.146 km². Tudo aqui era diferente: o clima, o rio, a floresta, o silêncio e até o jeito do vento passar. Mas eles ficaram.

Sobreviveram, empreenderam, criaram raízes. E seus descendentes seguem entre nós até os dias de hoje.
O professor, pesquisador, escritor e empresário Samuel Benchimol, um dos maiores estudiosos da formação do povo amazônida, dedicou páginas e mais páginas para entender quem somos. Em sua obra monumental “Amazônia: Formação Social e Cultural”, mergulhou na história dos que vieram para cá: judeus, portugueses, negros, nordestinos, japoneses, sírio-libaneses… Uma leitura fundamental para compreender esta região miscigenada. Foi a partir desse estudo que pude reunir informações para esta crônica sobre os japoneses – e outras virão sobre judeus, negros, sírio-libaneses e nordestinos que também ajudaram a formar a nossa terra.

Uma parte dos imigrantes japoneses chegou ao Brasil em 1907, atraída pelas plantações de café em São Paulo. O Japão, superpovoado e com poucas perspectivas, exportava mão de obra e sonhos. Como tantos outros povos, eram endogâmicos: casavam entre si, mantinham seus costumes, sua cozinha, suas crenças e sua disciplina que impressionava quem chegava perto.

Na Amazônia, a história começa pelo Pará, em 1928, quando foi criada a Companhia Japonesa de Plantações do Brasil S.A.. Ali receberam grandes lotes de terra em Acará, Tomé-Açu, Monte Alegre, Marabá, Bragança e Conceição do Araguaia. Dedicar-se-iam às hortaliças e à plantação de pimenta-do-reino, que se tornaria marca registrada dessa comunidade.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, fundaram a Cooperativa Mista de Tomé-Açu. Além da pimenta-do-reino, passaram a plantar limão havaiano e taitiano, melão, abacaxi, maracujá, acerola, cupuaçu, dendê… e se aventuraram também na avicultura. Um capítulo de produtividade que ecoa até hoje no Pará.

No Amazonas, tudo começou com o Dr. Tsukasa Uetsuka, que organizou um grupo de pesquisadores japoneses. Em 1930, fundaram a Vila Amazônia, no município de Parintins, com 10 mil hectares. Pouco depois, em 1934, o Sr. Ryoto Oyama conseguiu fazer florescer as primeiras plantas de juta, que prosperaram nas várzeas do baixo e médio Amazonas. Isso permitiu a instalação das primeiras fábricas de fiação e tecelagem na região. A guerra trouxe perseguições, mas, passado o conflito, retomaram suas atividades.
Quando chegaram ao mercado os produtos sintéticos – como o polipropileno – e os sistemas de transporte a granel e por contêineres, a judicultura entrou em declínio. Começou então o êxodo de nisseis e sanseis rumo a Manaus, enquanto outros tantos retornaram ao Japão, que vivia seu milagre econômico no pós-guerra.

Ainda assim, muitos permaneceram no baixo Amazonas e em Tomé-Açu, onde se tornaram pioneiros em inovação agrícola. Em Manaus, entre 1955 e 1958, o governador Plínio Coelho destinou grandes áreas na Estrada Manaus–Itacoatiara para que centenas de famílias nipônicas desenvolvessem horticultura e avicultura, contribuindo para abastecer a cidade.

Com a criação da Zona Franca de Manaus, em 1967, veio um novo ciclo. Empresas japonesas de renome instalaram fábricas no Polo Industrial: Sharp, Sony, Sanyo, Hitachi, Honda, Yamaha, Panasonic, Tojo, Seiko, Fuji, Showa, Toshiba, Mitsubishi, Minolta, Casio, entre outras. Algumas fecharam; outras ficaram e até hoje treinam e empregam milhares de trabalhadores amazonenses e de outras regiões.

E assim, muitos descendentes desses imigrantes permaneceram em Manaus, espalhando-se pelos diversos ramos profissionais e fortalecendo a economia regional. Tanto que recentemente foi criado o Bairro Colônia Japonesa, homenagem aos 130 anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre Brasil e Japão.

Dessa forma, os imigrantes japoneses e seus descendentes deixam uma marca profunda no desenvolvimento da Amazônia – seja no campo, na indústria, no comércio ou nos serviços. Uma história de trabalho duro, disciplina e esperança que se mistura para sempre com a nossa própria identidade amazônida.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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