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O CARNAVAL DE RUA SE ELITIZOU

Por José Rocha – Sou das antigas, meu amigo. Do tempo do confete e serpentina, do bloco de sujo da Eduardo Ribeiro, da era gloriosa do “carne valia” — valia tudo, menos impedir o caboclo de cair na gandaia, brincar no meio da rua e fazer da vida uma grande festa pagã. Mas, como tudo que é bom dura pouco, o tempo passou e resolveu piorar as coisas, porque a modernidade nunca vem para melhorar nada: agora, para brincar no meio da rua, você precisa ter coragem de UFC, seguro de vida e talvez um anjo da guarda terceirizado.

A solução encontrada? Elitizar o carnaval de rua.
Isso mesmo: criaram cercadinhos VIP para os mais abonados, com direito a segurança parruda, atendimento de primeira, banheiro cheirando a lavanda suíça, petisco gourmet e bebida que não é a mesma que o povão bebe — porque o povão toma é o que dá para tomar, não o que quer.

O carnaval de rua, que era a festa do doido, virou festa de condomínio de luxo. Para poucos. Para “os escolhidos”. A grande massa — nós, os foras do Olimpo — dança é na muvuca mesmo: suor, gritaria, bebedeira sem freio, uns empurrões, uns apertões, uns roubos… aquela coisa maravilhosa e caótica que só o povo entende.

Eu não sou contra nem a favor dessa elitização carnavalesca. Quem gosta e pode pagar, que vá. Fica lá no camarote, tomando drink com gelo transparente, olhando a multidão enlouquecida lá embaixo como se fosse um zoológico humano. Cada um escolhe onde quer se sujar.

Sou do tempo da Festa do Talco da Bica, de fechar a Rua Tapajós e virar mulher por algumas horas só para tirar sarro de todo mundo. Sou do tempo do bloco de sujo, de colocar uma cachaçazinha dentro do penico cheio de guaraná com montila e beber no meio da rua sem medo de ser feliz — ou de pegar tétano.
Sou da época da putaria inocente, da diversão sem manual de instruções, do beber até cair e acordar carregado pelos amigos para começar tudo de novo, como se amanhã fosse apenas uma lenda urbana.

Teve um tempo em que eu encarava umas dez bandas de rua em Manaus e ainda achava pouco. No outro dia eu estava lá, firme, no desfile das escolas de samba. A juventude é bonita até quando é irresponsável.

Ano retrasado fui prestigiar a Bica. Fiquei um pouco na multidão, como antigamente, mas meu irmão — alma boa — me chamou para um camarote ali perto do Bar do Armando. E eu fui, fazer o quê? A malandragem estava imperando e minha idade já não permite disputar espaço no aperto para “aguar as plantas” vinte vezes por noite.

Eu sou um dos fundadores da Bica, apresentei por anos, mas me afastei quando o carnaval virou VIP e esqueceram da velha guarda. Agora é assim: se pagar, entra; se não pagar, fica lá fora com o povão.
No tempo do Armando era outra história: o bar era o quartel-general dos boêmios, com suor, cerveja quente, garrafas rolando no chão e uma fila quilométrica para aliviar a bexiga. Hoje? Virou Área VIP. Os bacanas lá dentro, a peble — nós — lá fora.

As bandas de rua, antes anárquicas, se profissionalizaram. Agora recebem verba, apoio do governo, patrocínio… e, por isso mesmo, não podem mais “largar o pau” nos políticos e nos governos.
Caso típico da Bica: que antes era escrachada, provocadora, e hoje virou banda comportada. O tema do ano?
Falar dos tambaquis criados pelos chineses.
Ora, meu Deus…
No tempo do Armando era dedo na cara e nome aos bois! Pau nos políticos, nos corruptos e em quem merecesse!

Com todo respeito aos compositores da Bica, mas quem vai para o carnaval beber, suar e enlouquecer quer lá saber de tambaqui chinês?
Foda-se os chineses e o sushi — vou continuar comprando meu tambaqui na Manaus Moderna, na canoa, como dizia a Vanda:
“Sushi é o meu xiri!”

O povão quer é zoeira, putaria leve, brincadeira, gargalhada e mandar político ladrão para a ponte que caiu — metaforicamente, claro — e seguir dançando.

Agora tem outro carnaval elitizado, lá na Ferreira Pena, a tal “Banda dos Bacanas”. A entrada pela Monsenhor Coutinho está fechada e só entra quem pagou e está com a pulseira de segurança.
Os lisos — meu povo — devem ir pela Dez de Julho, onde tem um lindo portal escrito:
“A Rua é do Povo!”

Bonito, né?
Mas tente entrar sem pagar ou sem doar um quilo de alimento…
É barrado na hora!
A rua é do povo… desde que o povo pague pedágio.

Se não tiver o quilo de alimento, sobra brincar o carnaval com os barraqueiros Raimundo e Mara da Rua Tapajós, ali perto da Eduardo Ribeiro, onde antigamente eu pulava o bloco de sujo sem pagar nada, só pagando o preço da ressaca.

E é isso: o carnaval continua lindo, mas cada vez mais… com preço. Porque até a alegria, hoje em dia, virou produto premium.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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