Por Thais Silva/Redação Barelândia — Ouvida pela reportagem do Portal Barelândia, a advogada Barbara Hartmann, representante da ONG Instituto Animal Brasil, avalia que o encerramento do inquérito sobre a morte do cão Orelha, espancado até a morte na Praia Brava, em janeiro, longe de encerrar o caso, reacendeu a indignação de advogados, ativistas e moradores da região. A Polícia Civil concluiu a investigação com o indiciamento de apenas um adolescente, decisão que passou a ser duramente questionada por entidades da causa animal, que apontam inconsistências e lacunas relevantes na apuração.
A violência empregada no crime é o principal ponto de contestação. Orelha sofreu agressões extremas, com lesões que deixaram o crânio exposto. Para especialistas que acompanham o caso, a dinâmica do ataque não sustenta a hipótese de um agressor solitário.
De acordo com Barbara Hartmann, atuante desde os primeiros dias que o caso veio a público, seria improvável que uma única pessoa conseguisse executar atos de tamanha brutalidade sem auxílio. “A contenção do animal, a intensidade das agressões e o resultado final indicam a participação de mais de uma pessoa”, sustenta.
A janela de 20 minutos
A conclusão do inquérito se baseia, principalmente, em imagens de câmeras de segurança que mostram um adolescente deixando um condomínio às 5h25 e retornando às 5h50 do dia 4 de janeiro, um intervalo de apenas 20 minutos. No retorno, o jovem aparece calmo, sem marcas visíveis de sangue nas roupas, apesar da natureza extremamente violenta do crime.
Outro ponto que permanece sem esclarecimento é a presença de uma jovem que acompanhava o adolescente no retorno da praia. A identidade, o papel e o eventual conhecimento da testemunha sobre o ocorrido não foram detalhados no relatório final da polícia.
Silêncio em área vigiada
Advogados e entidades também questionam a ausência de imagens do momento exato da agressão ou da retirada do animal de sua casinha. A Praia Brava é uma área considerada nobre, equipada com mais de 15 câmeras de monitoramento e frequentemente ocupada por pessoas que acompanham o nascer do sol.
Para os críticos da investigação, a falta de registros visuais e de testemunhas diretas contrasta com a movimentação habitual do local e amplia as dúvidas sobre a completude da apuração.
Suspeita de responsabilização parcial
Organizações como o Instituto de Proteção Animal de Florianópolis, a Gaia Libertas, de São Paulo, e o Fórum Animal de Brasília avaliam que a rapidez na conclusão do inquérito pode ter servido para conter a pressão popular, sem esgotar todas as linhas investigativas. A suspeita é de que o indiciamento individual tenha funcionado como uma resposta simbólica à comoção pública, deixando outros possíveis envolvidos fora do alcance da Justiça.
Inicialmente, ao menos cinco jovens chegaram a ser investigados no caso. Para as entidades, a exclusão desses nomes sem explicações detalhadas reforça a sensação de responsabilização parcial.
Busca por transparência
Diante do cenário, as ONGs ingressaram com um mandado de segurança para obter acesso integral aos autos do inquérito. Elas argumentam que, como representantes do direito difuso e coletivo dos animais, têm o dever de fiscalizar a atuação do Estado e assegurar que todos os responsáveis sejam devidamente identificados e responsabilizados.
Para juristas e entidades de proteção animal, a forma como o caso foi concluído transmite uma mensagem perigosa à sociedade: a de que crimes de extrema crueldade podem ser resolvidos de maneira apressada, sem o esgotamento de todas as linhas investigativas. A percepção de impunidade, alertam, não afeta apenas a luta pelos direitos dos animais, mas corrói a confiança nas instituições e normaliza a violência como algo descartável.
O caso Orelha extrapolou os limites de um crime isolado e passou a mobilizar a sociedade como um alerta coletivo. A brutalidade do episódio provocou comoção, protestos e debates públicos sobre violência, responsabilidade social e proteção aos mais vulneráveis.
Segundo a advogada Barbara Hartmann, a atuação das entidades segue firme, e o Instituto Animal Brasil permanece empenhado no acompanhamento do caso até que todas as circunstâncias sejam devidamente esclarecidas e os responsáveis, punidos.



