26.1 C
Manaus
quarta-feira, junho 3, 2026
Publicidadespot_img
InicioColunistasCrônicas do José RochaAmor em Dois Nomes — Um Drama Urbano

Compartilhar

Amor em Dois Nomes — Um Drama Urbano

Por José Rocha – Orfeu, um caboclo das margens do baixo Rio Amazonas — voz de madeira de lei, coração de corda de náilon. Acreditava que o mundo se curava ao som do seu violão e de sua voz. Nas noites de boemia, entre o fumo e o tilintar de copos nos botecos antigos de Manaus, cantava como quem rezava. O Largo de São Sebastião era o seu altar.

Naquela noite, enquanto dedilhava versos que cheiravam a saudade, cantando a música ‘A Felicidade’:
“A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho, pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira…”

Seus olhos se cruzaram com os de uma jovem na primeira fila do Tacacá na Bossa, comandado pelo Joaquim Mello. Ela batia palmas de um jeito que fazia as notas afundarem mais fundo no peito. Foi um choque de lua e rio — amor à primeira vista, tão simples e tão impossível quanto um cântico antigo.
Ela se chamava Eurídice, vinda de Borba, pele lavada pela terra do interior e olhos bebendo a cidade grande. Ficou depois do show sentado, sozinha — talvez esperando alguém, talvez apenas desejando prolongar aquele instante. Orfeu mudou-se como quem não quer quebrar um encanto. Conversaram, beberam cerveja, riram. Ele, músico e poeta de bolso vazio; ela, moça batalhadora, babá para pagar os estudos.

Mas a vida tinha suas pedras. Após sofrer assédio sexual na casa onde trabalhava, Eurídice mudou-se para o bairro de São José, na Zona Leste, indo morar com uma primeira casada. A rua que antes os unia tornou-se distância — pois o que os olhos não veem, o coração às vezes esquece.

Meses viraram silêncio. Nove meses depois, uma ligação trouxe vento e notícia: Eurídice teve um filho, fruto do assédio do cunhado, e, envergonhada, foi morar com uma prima e trabalhar no Rio de Janeiro. O mundo de Orfeu balançou — passado e dúvida misturaram-se. Mas o amor é teimoso: reataram o contato, ele enviou pequenas ajudas pelos correios, e a esperança fez se correspondência.

Cinco anos depois, Eurídice voltou a Manaus para trabalhar numa loja do Shopping Bate Palmas, na Rua Marechal Deodoro, deixando o filho aos cuidados da mãe em Borba. Por um tempo, tudo foi como antes: o sambista curando dores com música, o jovem sonhando alto, ela representando pureza e lembrança. Viveram um amor de seis meses, até que a vida os levou novamente para lados opostos — ela, de volta ao interior; ele, na cidade onde as canções nascem.

Mesmo longe, Orfeu escreveu cartas de ausência e mandou mantimentos pelos barcos regionais ancorados na Balsa Amarela. Seis meses após a nova partida, uma ligação rasgou a rotina: Eurídice estava grávida. Orfeu sentiu um nó — a lembrança do filho anterior que não era dele, uma dúvida sussurrando de onde vinha aquela nova vida. A criança nasceu. Dois anos depois, Eurídice regressou a Manaus com os dois filhos, sem pai declarado, buscando ordem: certidões, pensão, reconhecimento — e justiça.

No juizado da vara de família, o destino reuniu-os diante do juiz: Orfeu, Eurídice, os dois meninos e o cunhado. Mandaram fazer exame de DNA. O resultado caiu como trovão seguido de silêncio: Orfeu era, de fato, pai dos dois filhos de Eurídice. A surpresa abriu espaço para a necessidade de segurança. Não houve escândalo maior que a responsabilidade que se impunha: registraram tudo em cartório, uniram lares e nomes, e o amor, que já havia sido canção e saudade, tornou se abrigo.

Assim, entre acordes e papéis, choros e risos, nasceu um recomeço. Orfeu e Eurídice, com seus dois filhos, passaram a morar sob o mesmo teto. A cidade que tantas vezes os separou agora testemunhava um casamento simples e verdadeiro.

O final — sim, um final feliz — não apagou as dores do caminho, mas as transformou em matéria-prima para versos novos. Porque, no fim das contas, a vida construída com confiança vale mais que qualquer medo. E ali, ao som do violão, o amor escolheu ficar.
Este é um caso típico de drama urbano: Amor em Dois Nomes.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Se você gostou desta crônica e deseja apoiar meu trabalho de pesquisa, memória e escrita sobre Manaus e a Amazônia, sua colaboração será muito bem-vinda. Quem quiser, pode enviar qualquer valor pelo Pix: 9299153-7448. José Martins Soares. Meu muito obrigado!

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

COLUNISTAS

Siga-nos

LEIA TAMBÉM

Clima esquenta na PM depois que a família do Coronel Menezes passou a mandar na corporação

Circula em grupos de policiais no WhatsApp um texto...

Comerciante que se achava dono da rua teve telhado demolido e material apreendido pela prefeitura

Um telhado construído em cima de uma rua para...