Por José Rocha – “Narrado por uma foliã daquele tempo”
“Ainda me lembro como se fosse hoje.
O Carnaval de 1915 desfilou pela Avenida Eduardo Ribeiro como o último sopro de uma era feliz que vivemos em Manaus. Naquela terça-feira, a cidade inteira parecia respirar festa: serpentinas ao vento, cabacinhas de cera estourando nas calçadas, perfumes doces do lança-perfume e risadas que ecoavam até as sacadas dos antigos sobrados.
As músicas de Inácio Campo — “Mineiro-Pau” e “Peperepê” — estavam na boca do povo. E quando alguém puxava “A Cabocla do Caxangá”, de João Pernambuco, era impossível não bater o pé no ritmo.
Os cordões, sempre desorganizados e alegres, vieram primeiro, trazendo caboclinhos, lavadeiras, palhaços e roceiros. Depois apareceram os blocos de moças e rapazes, tão alinhados que pareciam bailar ao som das bandas, cada fantasia mais criativa que a outra.
Mas o que realmente arrebatou a cidade foram os carros alegóricos. A Fábrica Miranda Corrêa surgiu com bonecos automáticos e um barril de chope gigante que fez o povo delirar. Era riqueza, brilho e ousadia.
E então chegaram eles: os rapazes do Paladino da Galhofa. Filhos da elite, artistas da brincadeira, mestres da sátira. Foi com eles que desfilei — eu, entre vinte e cinco moças, vestida de musa, túnica branca, diadema dourado e um violino em mãos. Víamos a avenida lotada, o povo vibrando, os cavalos ornamentados abrindo caminho, a Lira colossal, a Harpa encantada, o carro japonês, as falenas sobrevoando as crianças… e por fim, o glorioso “Chave de Oiro”, encerrando um espetáculo que Manaus jamais esqueceu.
Quando o sol se pôs, já sabíamos: havíamos vencido.
E naquela mesma noite, no baile do Ideal Clube, coroamos a última grande festa antes da cidade mergulhar nos tempos difíceis que viriam.
Guardo tudo na memória como um relicário vivo —
o brilho, a música, os risos, e a certeza de que, naquele 1915,
Manaus ainda acreditava na própria alegria.”
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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