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O Torno de Bancada que Me Fez Voltar ao Passado

Por José Rocha – Para espantar o ócio pós-carnaval, resolvi — do nada — recolocar o cabo de um martelo que havia quebrado sabe-se lá quantos anos atrás. Ao tentar retirar o pedaço de madeira preso na cabeça da ferramenta, percebi que precisaria de um torno de bancada para encarar a empreitada.

Vasculhei a velha caixa de ferramentas do meu saudoso pai, o luthier Rochinha, e — por incrível que pareça — encontrei um torno esquecido num canto havia décadas. Um sobrevivente.
Dei uma boa lubrificada no velho guerreiro e o coloquei para trabalhar.

Quando prendi a cabeça do martelo no torno e comecei a retirar a madeira, de repente parei. Voltei sessenta anos no passado.
Eu tinha nove anos quando, mexendo nos cacarecos do senhor Bringel, no porão ao lado do Solar dos Bringel, encontrei uma bala de fuzil. Na minha cabeça de criança, devia ser da Segunda Guerra — ou algo assim.

Num dia em que meu pai saiu da oficina de violões, também instalada nos porões do Solar, resolvi brincar de pequeno alquimista. Coloquei a munição exatamente nesse mesmo torno para tentar tirar a pólvora e fazer um catolé para brincar com as outras crianças.

Tentei de tudo para desmontar o cartucho… tudo em vão. Hoje penso que o Anjo da Guarda das Crianças Bisbilhoteiras estava ali, firme e atento. Por um milagre, não bati o martelo no detonador — o que poderia fazer a bala disparar, ricochetear numa parede e acabar comigo ali mesmo.

Fui salvo pelo gongo: ouvi os passos do meu pai voltando. Tirei a bala do torno e corri para devolvê-la ao lugar de onde havia pego.
De volta ao presente, decidi pesquisar sobre esse torno de bancada que, sem saber, tinha me poupado a vida. Meu pai costumava comprar ferramentas na antiga Casa Canavarro, na Rua dos Barés, mas este torno não tem marca alguma. Nada.

Segundo especialistas, deve ter sido fabricado entre 1940 e 1960, no Sul ou Sudeste. Era comum entre marceneiros e artesãos: fixação por sargento, manípulo alongado, parafuso de aço de rosca larga guiado por barras paralelas. Ideal para trabalhos delicados — perfeito para a lutheria. Podia segurar braços, pestanas e pequenas peças de madeira sem machucar o instrumento.

Outro dia recebi aqui no meu barraco a visita do músico Adal Deus Te Abençoe. Mostrei-lhe as ferramentas e os violões que guardo do meu pai. Ele perguntou se eu tinha herdado o dom da lutheria.

Respondi que meu pai adorava contar histórias — e que foi exatamente isso que herdei dele: ser um contador de histórias e estórias, como esta, nascida de um simples torno de bancada que atravessou gerações… e me devolveu uma lembrança que quase custou minha vida.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Se você gostou desta crônica e deseja apoiar meu trabalho de pesquisa, memória e escrita sobre Manaus e a Amazônia, sua colaboração será muito bem-vinda. Quem quiser, pode enviar qualquer valor pelo Pix: 9299153-7448. José Martins Soares. Meu muito obrigado!

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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