Por José Rocha – O homicídio, infelizmente, tornou-se um acontecimento comum em nossa sociedade. Mas alguns crimes atravessam o tempo e permanecem como cicatrizes na memória daqueles que os viveram de perto. O assassinato do meu colega de faculdade, Aderson Conceição de Melo, foi um desses acontecimentos que abalaram profundamente todos nós, alunos da Faculdade de Estudos Sociais da antiga Universidade do Amazonas, na década de oitenta.
Naqueles anos, estudávamos Administração com o entusiasmo de quem buscava um futuro melhor. Como ensinava o mestre Idalberto Chiavenato, a formação administrativa exigia técnicas, conhecimentos sociais e habilidades humanas, preparando o profissional para compreender as complexidades das organizações e liderar pessoas. E foi justamente por buscar essa qualificação que o Aderson chegou até nós.

Ele já era formado em Ciências Jurídicas e havia sido aprovado, em maio de 1979, no concurso para Delegado da Polícia Civil do Amazonas. Exercia o cargo com seriedade, determinação e senso de dever. No entanto, ambicionava voos maiores: sonhava assumir posições de comando, como Delegado-Geral ou Secretário de Segurança Pública. Por isso, resolveu voltar à universidade e cursar Administração, para aprimorar sua capacidade de gestão.
Naquele tempo, antes da conclusão do Campus Universitário no Aleixo, as faculdades funcionavam em prédios espalhados pela cidade. A nossa, a Faculdade de Administração e Contabilidade, ocupava o prédio da Rua Monsenhor Coutinho, 301, esquina com a Rua Epaminondas — onde hoje funciona o Colégio Estadual Professora Eunice Serrano Telles de Souza.
Foi a partir do quarto período que o Aderson se tornou meu colega de classe. Sempre sentava ao meu lado. Tornamo-nos amigos rapidamente. Ele era um sujeito educado, sereno, jamais arrogante e dono de uma oratória que encantava qualquer audiência. Talvez pela formação jurídica, falava com brilho, precisão e segurança.
Certa vez, enquanto mexia em sua bolsa capanga, deixou cair um revólver de grosso calibre. Levei um susto daqueles. Ele riu e explicou, com naturalidade, que como delegado precisava andar armado e atento: combatia a marginalidade diariamente. Depois desse episódio, começou a confiar mais em mim e, aos poucos, revelou fragmentos do seu dia a dia policial.
O Aderson sempre se vestia de maneira impecável — calça social, camisa de mangas compridas, por vezes gravata, e um cavanhaque bem aparado que lhe dava um ar austero. Era muito querido pelos colegas, sempre gentil e brincalhão. Sabia-se que tinha uma irmã cujo namorado, filho de um empresário do ramo de frigoríficos em Goiás, era violento e a agredia com frequência. O Aderson detestava aquele sujeito e temia pelo destino dela.
Numa das disciplinas, Administração Financeira, tínhamos aulas na Faculdade de Educação, hoje Centro de Artes da UFAM (CAUA), na Rua Tapajós, ao lado da Igreja de São Sebastião. Todas as sextas-feiras fazíamos o mesmo percurso a pé — um caminho arborizado, mas muito escuro. Por meses seguimos juntos, conversando sobre a vida, os estudos e seus planos de futuro.
Até que, numa sexta-feira, ao chegar ao portão da faculdade, encontrei o Aderson conversando com alguns colegas. Ele apenas me disse:
— Caro amigo, vá na frente. Depois eu vou.
Foi a primeira vez que fiz o trajeto sozinho. Assisti à aula inteira, sentindo falta da sua presença habitual. No retorno, percebi algo estranho: as ruas do Centro estavam fechadas, dominadas por viaturas da Polícia Civil. A cidade parecia suspensa. Ao chegar à faculdade, recebi a notícia que até hoje ecoa dentro de mim: o Aderson havia sido assassinado.
Fui levado até o local. O sangue ainda marcava o chão. Era 8 de novembro de 1982.
O impacto foi devastador. Pouco depois, colegas comentavam que poderia ter sido um “crime de encomenda”. Se fosse verdade, o pistoleiro provavelmente já me vira inúmeras vezes caminhando ao lado do Aderson naquele mesmo trecho. Naquele dia, ao ver meu amigo sozinho, cumpriu a missão. Eu, que o acompanhara por tantos meses, poderia ter morrido sem sequer perceber o risco que corria.
As versões do crime se multiplicaram. A mais comentada dizia que o cunhado violento da irmã do Aderson — ressentido por uma prisão e supostas agressões sofridas na Delegacia da Raiz — jurara vingança e teria contratado dois pistoleiros da cidade de Imperatriz (MA). Outra versão apontava para um poderoso comerciante preso pela Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos, que também teria mandado matá-lo após sofrer torturas na prisão.
Nada foi plenamente esclarecido. Tempos depois, soubemos que o ex-cunhado morreu misteriosamente em um acidente de trânsito em Goiás.
A perda do Aderson marcou profundamente nossa turma. Mesmo assim, seguimos adiante. Em nossa formatura, ele foi lembrado com emoção por meio de uma homenagem póstuma que dizia:
“Ao inesquecível colega ADERSON CONCEIÇÃO DE MELO, que tão cedo e repentinamente Deus chamou para sua morada eterna, onde viverá na paz do Senhor.”
O Governo do Estado prestou sua justa homenagem ao meu amigo por meio do Decreto nº 7.038, que criou o Instituto de Identificação Aderson Conceição de Melo. Seu nome, assim, continua vivo na memória institucional do Amazonas.
Com esta crônica — e com o livro que pretendo escrever no futuro — espero contribuir para que Aderson jamais seja esquecido.
Afinal, alguns homens passam pela vida com tamanha dignidade que se tornam eternos.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
Se você gostou desta crônica e deseja apoiar meu trabalho de pesquisa, memória e escrita sobre Manaus e a Amazônia, sua colaboração será muito bem-vinda. Quem quiser, pode enviar qualquer valor pelo Pix: 9299153-7448. José Martins Soares.
Meu muito obrigado!



