Por José Rocha – Manaus sempre foi uma cidade movida a esporte. Antes mesmo de ginásios modernos, antes de transmissões ao vivo e da técnica com GPS, havia um ritmo próprio feito nos campos de barro, nas quadras abertas e nos pátios da cidade. Futebol, basquete, vôlei… cada jogo tinha seu ritual, sua torcida e seu grito de rua.
No final dos anos 1960, surgiu algo novo. Uma bola diferente — leve nas mãos, veloz nos arremessos — começou a chamar a atenção nas quadras manauaras. Era o handebol, esporte que até então era conhecido apenas em capitais maiores do país, mas que logo conquistaria espaço e identidade por aqui graças à ousadia de um grupo de pioneiros.
No centro dessa história está Dudu Monteiro de Paula, cujos passos iniciais ajudaram a iniciar essa nova tradição.
A vinda da bola, das regras e o primeiro jogo – Segundo reportagem publicada no Portal Olá! Salve Salve, a origem do handebol no Amazonas remonta ao final dos anos 60, com a família Monteiro de Paula como protagonista dessa estreia.
Foi o irmão Edgar quem trouxe as regras de São Paulo, enquanto Evandro trouxe as bolas diretamente da Alemanha, onde a modalidade já era consolidada. Juntos com Dudu, reuniram jogadores do basquete, do voleibol e do “futebol de salão” — nome dado ao futsal na época — e organizaram o primeiro jogo na quadra descoberta do Atlético Rio Negro Clube, onde hoje se ergue o ginásio Aristophano Antony.
Nessa quadra improvisada, aprendiam o joelho no chão, o arremesso no ar e a defesa firme atrás. Mal sabiam eles que aquela pequena partida improvisada seria o primeiro capítulo de uma história que atravessaria décadas.
Do estado às competições nacionais – Sob a responsabilidade da Federação Amazonense de Desportos Atléticos (FADA), presidida por Laercio Miranda, o handebol ganhou força e organização, passando a representar o Amazonas em competições escolares, universitárias e, posteriormente, em eventos nacionais. Sou testemunha viva desse período: joguei handebol no início da década de setenta, na quadra do tradicional Colégio Benjamim Constant, onde muitos jovens atletas começaram a escrever a história da modalidade no estado.
Em 1972, a primeira seleção amazonense disputou os Jogos Universitários em Fortaleza, ainda com pouco domínio das regras — tanto que um técnico paulista precisou interromper uma partida para explicar ao time local que “handebol não é um jogo de porrada”.
O primeiro título de campeão brasileiro veio em 1976, nos Jogos Estudantis no naipe feminino, seguido por um vice-campeonato em 1977 e, em 1978, o título do Campeonato Brasileiro Adulto Feminino.
No início dos anos 1980 a modalidade se firmou como política esportiva: em 1980 foi criada a Federação Amazonense de Handebol, sucessora da FADA, com contribuição importante de nomes como o Professor Jefferson Oliveira, que anos depois regularizaria a entidade esportiva no estado.
Nomes que marcaram época – O handebol amazonense não só cresceu — ele brilhou em nível nacional e internacional. A reportagem do Portal Olá! Salve Salve lista alguns dos atletas que se destacaram ao longo dos anos, como:
Walmir Alencar/Gadelha/Margareth/Mário “Garibaldo” /Regina/Inácio “Piolho” /Magali/Bosco/Gabriel/Socorrinha/Reginaldo “Toronto”/Ana/Nertan/Ozanildo/Kennedy/Lucídio/Paulo Alencar/Ricardo Azulay/Rommeu Zogaíb
Esses nomes cimentaram a reputação do handebol amazonense, levando o esporte para além das fronteiras do estado e projetando talento para o resto do país.
O legado segue vivo – O handebol amazonense passou por desafios administrativos, mudanças de federação, períodos de dificuldade financeira e reorganizações — como a criação da Liga de Handebol do Amazonas (LIHAM) em 2007 — mas nunca deixou de ser praticado nas escolas, clubes e comunidades.
Hoje, ainda se ouve o som da bola quicando no ginásio do Rio Negro, nas competições escolares e nos estaduais. O esporte segue revelando talentos e emocionando famílias inteiras.
E o Dudu? No meio dessa rica tapeçaria de conquistas, está o olhar atento de Dudu. Não apenas como um dos idealizadores do início da prática em Manaus, mas como alguém que ajudou a contar essa história — seja nos primeiros jogos improvisados no Rio Negro, seja mais tarde, em textos que registram memórias e experiências de uma era que começou com uma bola alemã, regras trazidas de São Paulo e muita vontade de jogar.
O handebol no Amazonas hoje é festa, reconhecimento e tradição — e cada passo dessa trajetória tem algo a ver com aqueles primeiros dias de quadra aberta e muita disposição em aprender.
Porque esporte não é apenas competição: É cultura, é memória, é vida em movimento.
A título de esclarecimento: Hand = mão e Ball = bola, ou seja, literalmente “bola jogada com a mão”. Quando o esporte começou a ser difundido no Brasil, principalmente a partir das décadas de 1930 e 1940, educadores físicos e professores passaram a adaptar o nome para a grafia portuguesa. Assim nasceu o handebol.
Outros esportes passaram por processo semelhante: volleyball → voleibol,
football → futebol e basketball → basquetebol. Com o tempo, o uso popular simplificou ainda mais esses nomes, e muitas pessoas passaram a dizer apenas “hande”, “vôlei” e “basquete”. Aqui em Manaus, no auge do handebol, os jogadores eram conhecidos como handebolistas. No entanto, quando as competições são internacionais, os termos costumam voltar à forma inglesa: handball, football e basketball.
Fonte: Dudu Monteiro de Paula, Portal Salve Salve, BLOGDOROCHA
Foto: Mauro Neto. Jogos da Juventude 2018
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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