Por José Rocha – Hoje saí do meu barraco igual a um surubim: liso, mas cheio de pinta! Acordei com vontade de tirar sarro, caminhar pelo Centro Histórico, ver gente, prosear e curtir essa Manaus da minha alma, que mesmo quando apronta, eu continuo amando.
Comecei pela Rua Mauá, aquele templo do lenocínio que já viu de tudo nesse mundo. De lá, atravessei a Praça Dom Pedro II, passando pelo meio da malandragem que circulava por ali. Eu estava até torcendo para alguém “tirar onda” comigo, mas ninguém se arriscou. Acho que meu charme intimida — ou então estavam todos ocupados demais.
Entrei na casa do Sebastião Aquiles para fotografar umas obras do saudoso artista plástico Palheta. Eu lá, metido a marchand sem ser marchand, crítico de arte sem ser crítico, e apreciador de abstrato sem entender nada de abstrato. Mas fui assim mesmo, de gaiato — “entrei de gaiato no navio, entrei, entrei, entrei por engano…”.
Depois da sessão de fotos, dei um pulo no Mirante Rio Negro. O lugar estava lotado de turistas, provavelmente vindos daquele transatlântico ancorado no Porto Di Carli… digo, Porto de Manaus. No meio daquela festa, encontrei até um cacique que puxou conversa.
Contou-me que sua tribo estava sendo perseguida por um vereador que quer tirá-los, na marra, de uma área na Cidade Nova. Fiquei pensando: “Milhares de anos os indígenas por aqui, foram invadidos, massacrados, expulsos… e agora vem uns mamelucos dizer que indígena é invasor?”. Tenha dó!
Estávamos no último andar do mirante quando ele apontou para a beira do rio e falou:
— “Olha aquela pedra lá… cheio de peixe parrudo! Tucunarés enormes!”
Respondi:
— Cacique, eu não enxergo nem a pedra… imagina dois peixes do lado dela!
O homem caiu na gargalhada achando que eu estava tirando onda. Pode uma coisa dessas?
No caminho de volta, resolvi entrar no tal Mercado Origem, ali na Booth Line, onde estavam montando um palco gigante. Perguntei a um trabalhador se era show aberto ou pago. Ele respondeu:
— “Só entra convidado do patrão… ou quem pagar ingresso.”
- Tô fora!
Continuei minha caminhada até o Mercadão Adolpho Lisboa. Andei, perguntei preços, comparei… e não comprei nada. Coisa de quem está “surubim”: liso, mas cheio de pinta.
Passei em lojas antigas atrás de um fogão e um ferro de engomar de carvão. Nada! A cabocada agora só quer eletricidade — tão certo! Eu só queria umas relíquias para relembrar minha infância num flutuante no Igarapé de Manaus.
Resolvi então entrar na Feira da Manaus Moderna, no setor de peixes. Pedi um pedaço de filé de pirarucu. Fui muito bem atendido. O peixeiro cortou direitinho, botou sal grosso e gelo, já que eu disse que ia demorar pra chegar ao meu barraco. Gente boa!
Lembrei-me da minha saudosa mãe dizendo: “Comer peixe sem farinha não faz sentido!”
E era verdade. Comprei também um pacotinho de “Sal do Himalaia” por quatro reais. Besteira pura! Sal é sal, seja do Himalaia, do mar ou do Saramadaia! Mas peixe sem uma pitadinha de sal e farinha não tem graça nenhuma.
Ao passar na frente do Bar Jangadeiro, encontrei Manoel Batera, Neto Boto Tucuxi, Frank Brasil e outro camarada que não lembrei o nome. Culpa da idade — a gente vai esquecendo as coisas… e as contas!
Bar é igual promessa: se entrou, sentou, zonou, a conta pagou! Ainda bem que o peixeiro reforçou o sal e o gelo, porque eu só voltei pra casa quase três da tarde.
Mas valeu. Valeu cada passo, cada prosa, cada canto do meu Centrão — não o dos políticos, mas o de Manaus, que mora no meu coração.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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Meu muito obrigado!



