Por José Rocha – Os manauaras que hoje já ostentam seus sessenta e tantos anos ainda carregam no ouvido – e no coração – um gênero musical chamado Bossa Nova. Para os jovens de agora, isso pode soar como uma coisa meio diferente, suave demais para um mundo apressado. Mas nós, que vivemos aquela Manaus romântica, tivemos o privilégio de conhecer de perto esse canto quase sussurrado, essa batida de violão que parece conversa de madrugada. E tudo isso ganhou ainda mais encanto por causa de um acontecimento único: a apresentação de João Gilberto no Teatro Amazonas.
João Gilberto Prado Pereira de Oliveira era baiano de Juazeiro, nascido em 10 de junho de 1931. Partiu em 6 de julho de 2019, no Rio de Janeiro, depois de transformar para sempre a música brasileira. Dono de um jeito só dele, ficou famoso dentro e fora do país com seu violão mínimo e preciso, suas interpretações quase faladas e um repertório que incluía Bim Bom, Só Danço Samba, Corcovado, O Pato, Desafinado… músicas que parecem acalmar até o barulho do mundo.
A tal da Bossa Nova, explicam os especialistas, é isso mesmo: coloquial, suave, intimista. Nada de exageros vocais, nada de gritaria. Um violão com “levada” originalíssima que, sozinho, substitui orquestras inteiras. Letras que falam de amor, mar, cotidiano e aquela coisa bonita chamada “a vida”. Surgiu na Zona Sul do Rio e encontrou seus grandes nomes em João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão, Elis Regina, Astrud Gilberto, Toquinho, Carlos Lyra, Roberto Menescal… Uma constelação.
Pois bem: quando a Rede Amazônica de Televisão completou 25 anos, decidiu ousar. Trouxe João Gilberto para uma única apresentação no nosso cartão-postal maior, o Teatro Amazonas. Era primeiro de setembro de 1997. Uma data que, para quem esteve lá, virou memória permanente.
Eu? Eu não estava. Não pude ir. Mas amigo que é amigo sempre volta com história boa para dividir. E o meu voltou dizendo que o Teatro estava lotado, um calor humano daqueles que só Manaus sabe fazer. Mas, como toda boa crônica precisa de um detalhe pitoresco, lá vai: João Gilberto pediu que desligassem o ar-condicionado. Disse que o vento gelado atrapalhava sua voz.
No verão amazônico. Em setembro. Dentro do Teatro Amazonas.
Dizem que houve protestos, gritos lá do fundão, gente abanando o rosto com o programa do espetáculo. Mas João era João – e João tinha suas manias. E eram muitas, segundo contam os historiadores: perfeccionismo quase obsessivo, reclusão, rotina noturna, organização impecável, amor por violões, rituais de higiene e vestuário… sem falar nos atrasos e cancelamentos que deixavam produtores com o coração na mão.
Mas, manias à parte, o legado dele está aí: a Bossa Nova virou passaporte internacional, influenciou o jazz americano e se tornou um dos estilos mais icônicos já criados em território brasileiro.
Eu, José Rocha, passados todos esses anos, continuo firme no meu ritual de fim de semana: boto uma Bossa Nova para tocar, fecho os olhos e deixo o tempo passar devagar. Os vizinhos? Ah, os vizinhos preferem um sertanejo no último volume. Mas a vida é mesmo assim: cada um com sua trilha sonora. Eu fico com João, Tom e Vinicius, que nunca falham comigo – nem quando pedem para desligar o ar.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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