Por José Rocha – Trecho extraído do livro “O Tesouro Escondido no Casarão Vernier”, de José Rocha.”… O pequeno Bira sentiu profundamente a separação dos pais e do irmão mais velho, Gregório, além de um choque cultural pela mudança repentina de sua condição de caboclo ribeirinho para a capital e, em seguida, para a residência de um rico empresário francês. No início, tudo parecia maravilhoso, com a culinária francesa sofisticada e rica em sabores, celebrações ao redor de uma mesa farta, e lazer que incluía músicas, danças, óperas no Teatro Amazonas, passeios pelas belas praças e pelos bondes, ‘Roadway’ (Porto de Manaus) e lugares encantadores da cidade que respirava e imitava a França.
No entanto, o que mais chamava a atenção do jovem Bira eram os bondes da Linha da Saudade, a preferida pelas jovens francesas filhas do casal, pois era considerado o mais charmoso — estava na moda passear naquele ‘elétrico’.
O trajeto começava na Estação dos Bondes, na Praça Oswaldo Cruz, seguia pela Praça Quinze de Novembro e pela Sete de Setembro, subia a Avenida Eduardo Ribeiro e entrava na Rua Dez de Julho, passando em frente ao Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Dali, dobrava à direita no início da Rua Ferreira Pena, fazendo parada no Casarão Vernier.
Em seguida, contornava a Praça Cinco de Novembro — mais conhecida como Praça da Saudade, assim chamada por ter existido ali o antigo campo-santo São José, evocando a saudade dos entes queridos sepultados naquele local, origem do nome Linha da Saudade. Depois, retornava pela Avenida Epaminondas, continuava pela Rua da Instalação e novamente pela Sete de Setembro, seguindo em direção à Praça Dom Pedro II, Rua Governador Vitório e Tamandaré, até chegar novamente à Estação dos Bondes, em frente ao edifício da Manáos Tramways and Light Company Limited, empresa inglesa concessionária dos serviços de energia elétrica e transporte coletivo da cidade (onde, mais tarde, funcionaria a sede da CEM – Companhia de Eletricidade de Manaus).
Para quem até pouco tempo era apenas um interiorano da várzea, acostumado a canoas e barcos de linha, viver num casarão de família francesa e ver passar, diante de casa, um elegante bonde elétrico — limpo, silencioso, repleto de jovens bem-vestidos e alegres — era, para Bira, um verdadeiro deslumbre…”
Observação: Este livro foi submetido ao PNAB/2026. Sobre o conteúdo, um dos pareceristas afirmou: “Projeto bem estruturado, narrativa clara, metas quantitativas definidas e forte conexão com o patrimônio histórico de Manaus.”
Apesar disso, fui desclassificado por outro parecerista, que apontou: “A equipe não é apresentada conforme preconiza o edital. Não apresentou autodeclaração.”
Uma pena. O livro foi elogiado, mas, por um descuido formal, acabou desclassificado. Ou seja, para eles, a forma pesou mais do que a relevância do conteúdo. Sorry.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
Se você gostou desta crônica e deseja apoiar meu trabalho de pesquisa, memória e escrita sobre Manaus e a Amazônia, sua colaboração será muito bem-vinda. Quem quiser, pode enviar qualquer valor pelo Pix: 9299153-7448. José Martins Soares.
Meu muito obrigado!



