Por José Rocha – A malhação de Judas, lá dos tempos idos, sempre foi a forma que a comunidade cristã encontrou para “descontar a raiva” no traidor que entregou Jesus aos romanos. Uma tradição antiga, forte, mas que hoje vai sumindo de mansinho, ficando só na memória dos mais velhos — como eu, que ainda recordo, no Sábado de Aleluia, a última grande façanha da qual participei: a Malhação do Judas Pedrão.
Eu tinha doze anos quando fui morar na Vila Paraíso, com entrada pela Rua Tapajós. Casei, mudei para o Conjunto dos Jornalistas, separei-me e, como bom filhote que retorna ao ninho, voltei para meu território original. Lá reencontrei amigos, colegas, vizinhos e toda a turma da parte mais famosa da região: a Ladeira da Tapajós.
Os antigos sempre diziam que a Sexta-Feira da Paixão devia ser respeitada “da hora que acorda até a boca da noite”. Pois bem, respeitando a tradição (mais ou menos…), reunimos a galera no Bar da Dona Vanda para gelar umas cervas e confeccionar o boneco do Judas.
A turma era grande: Batata, Capuchinho, Núbia, Hino, Manoel Mormão, Magaiver, João Cana Brava, Wanderlan, Paulinho, Taca, Alcenir, Chiquito, China, Tia Vanda, Tia Daca, Zigomar, Henrique, e mais um bocado que aparecia só para dar pitaco e tomar cerveja.
Cada um trouxe alguma coisa: calça jeans, cinturão, sapatos, camisa de manga comprida, meias, jornais, isopor, agulhas, linhas… e muita paciência — porque, vou te contar, montar aquele Judas deu trabalho!
Encher os sapatos, formar as pernas, ajeitar o tronco, amarrar os braços… mas o pior foi a cabeça. Aquilo parecia tudo, menos gente. Parecia mais um ET perdido no bairro.
Mas, por volta das onze da noite, a criatura ficou pronta. Só faltava o nome. E, como bom bairro democrático, houve consenso imediato: o Judas homenagearia um certo vizinho metido a besta, fanfarrão, contador de lorotas, pescador de histórias impossíveis, dono de uma barriga avantajada e que se achava o machão oficial da Rua Tapajós.
Não teve erro: o Judas seria o Pedrão.
Penduramos o boneco numa árvore do quintal do Manoel Mormão (hoje Academia do Tabosa), com uma placa no peito:
“PEDRÃO, O MACHÃO!”
O plano era simples e genial: acordar cedo, colocar fogo no Judas, correr ladeira acima e zuar o Pedrão antes que o homenageado soubesse da brincadeira.
Mas ao chegarmos ao quintal, ainda meio sonolentos, o Mormão deu um salto da rede e gritou:
— Prefeito! O Felipe Viriato veio de madrugada com um terçadão, cortou o Pedrão e levou lá pras bandas da Getúlio Vargas!
Para quem não conhece o Felipe, ele é gente boa, filho do grande advogado Dr. Viriato, morador tradicional da Avenida Getúlio Vargas. Quando jovem, era o campeão de aprontar; qualquer confusão, ele estava no roteiro. Anos depois, virou sujeito tranquilo, quase um santo do pao oco.
Pois bem, resolvi ir atrás dele. Entrei pela Vila Paraíso e cheguei na Getúlio Vargas, onde encontrei o “Pedrão Machão”, o Judas, pendurado numa árvore em frente à Casa Aroeira.
Dei uns gritos com o Felipe, que, na maior cara de pau, começou a chorar, pedir desculpas e jurar que só quis dar “uma ajudinha”.
Ele subiu na árvore, desamarrou o Judas e o levou inteirinho de volta para a Ladeira da Tapajós, para a devida malhação.
Mas aí veio o imprevisto: o Pedrão de carne e osso já estava sabendo da brincadeira. Apareceu bem na porta do Mormão, sem camisa, exibindo o barrigão sensual dele — pelo menos para as “negas dele”, é claro!
Aí pronto. Perdemos o clima para a malhação. Ninguém teve coragem de malhar o Judas com o original olhando.
Chegamos então ao acordo mais diplomático da história da Rua Tapajós: colocamos o Pedrão sentado numa cadeira de macarrão, com chapéu e óculos tipo Raimundo Nonato — e nada de surra no Judas!
Resultado?
O Pedrão passou o dia inteiro na Ladeira da Tapajós, posando para fotografias, tomando cerveja, jogando dominó, comendo peixe frito e curtindo o som do DJ Lourão Isaac — tudo pago pelo “machão” Pedrão, que adorou a homenagem.
E assim terminou uma das malhações de Judas mais inusitadas da história da Vila Paraíso e da Rua Tapajós.
Salve o Sábado de Aleluia!
Salve a Malhação de Judas — especialmente a do Pedrão!
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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