Por José Rocha – Saí caminhando pelo Centro Histórico de minha Manaus com a intenção dupla: cumprir uma missão cultural e, ao mesmo tempo, verificar in loco como anda o velho “Centrão”. Sempre encontro nessas caminhadas material de sobra para minhas crônicas, que compartilho com os amigos das redes sociais. –
Como declarei mês passado, fui um dos vencedores do Prêmio Literário Cidade de Manaus, com o melhor romance de 2025, pela obra “Ária Ramos Subindo Ao Céu – Amor e Tragédia em 1915”. Por isso, deixei minha casa naquela manhã com o propósito de tratar dos trâmites dessa premiação junto ao Conselho Municipal de Cultura, na Rua Bernardo Ramos.
Parti da Rua Tapajós e logo parei diante do Casarão dos Madeira, que me arrancou um suspiro triste: seus telhados estão em processo de desabamento. É doloroso ver um patrimônio daquela importância se perdendo pela falta de manutenção. Dali, subi a velha Escadaria do Barão de São Leonardo, o rico proprietário que ergueu o Palacete homônimo — hoje Instituto Benjamin Constant. Já decidi: irei atrás de recursos para revitalizar essa escadaria e, quem sabe, contribuir também para recuperar a antiga residência dos Madeira.
Segui pela lateral do Teatro Amazonas, subindo pela Rua Dez de Julho. Passei à sua frente e encontrei um grande número de turistas entrando no nosso maior cartão-postal. Curiosamente, percebi que minha última visita lá dentro já tinha uns quatro anos. Aliás, nós manauaras passamos centenas de vezes diante do TA e raramente temos o impulso de entrar, o mesmo valendo para o Centro Cultural Palácio da Justiça, logo atrás.
Entrei no início da Rua Frei José dos Inocentes. Em frente a um pequeno “motel”, uma jovem puxou conversa comigo. Agradeci a simpatia, mas segui adiante — minha missão naquele momento era outra.
Na esquina com a Rua Itamaracá, uma janela aberta me permitiu espiar o interior de uma casa secular abandonada. Apesar do tempo e do descaso, os esteios de madeira seguem firmes, resistindo ao abandono. Um comerciante ali perto me observava sem entender o motivo da minha curiosidade por um prédio aparentemente sem valor — mal sabe ele que ali mora a história.
Continuei pela Frei José, observando os fundos do antigo Hotel Cassina, hoje Casarão da Inovação Cassina — e confesso que até hoje não sei exatamente que “inovação” acontece lá dentro. Mais adiante, passei pela casa da querida Tia Nazinha, um pilar da cultura manauara e símbolo de resistência comunitária. Pensei em visitá-la, mas por saber de sua idade avançada e de seus problemas de saúde, preferi não incomodá-la.
Chegando à Rua Bernardo Ramos, admirei como sempre aquelas casas seculares: o Templo Maçônico, as Primeiras Casas de Manaus (atual Centro Cultural Oscar Ramos), o prédio do IGHA e outro imóvel abandonado, cuja recuperação, dizem, está nos planos da Prefeitura.
Finalmente, entrei no Casarão Thiago de Mello, sede do Conselho Municipal de Cultura. Fui recebido com cordialidade por todos, inclusive pela nova presidente, a doutora Janayna Castro.
Terminei a visita e segui para o Mirante Lúcia Almeida, que sempre me chama atenção. Conversei com uma funcionária da limpeza e comentei sobre as plantas que estão morrendo por falta de água — inclusive as grandes jiboias. Ela explicou que a responsabilidade é de outra funcionária. Deu vontade de pegar um balde e salvar pelo menos algumas, mas são muitas e distribuídas em três andares. Acabei dizendo:
— Colocar plantas num local público e não cuidar delas… era melhor nem plantar!
Ela apenas sorriu.
Voltei pela Rua Visconde de Mauá. Passei diante da ManausCult, agora sob a presidência de Márcio Braz, e observei o estacionamento onde se projeta construir o Aquário Municipal — ainda não sei se esse será ou não uma prioridade do novo prefeito, Renato Júnior.
Para fechar o trajeto, caminhei até o Museu do Porto, fechado há décadas. Parei para fotografar o que jaz abandonadas no pátio, deteriorando-se ao relento peças inglesas do tempo da Manaós Harbour. Ali perto, um grupo de moradores de rua pedia ajuda aos transeuntes. Lamentei a situação deles — e também a do outro grupo que já tomou conta da Praça XV de Novembro, atrás da Matriz, e parte da Rua José Clemente.
Minha missão era cultural, sim — mas não apenas para tratar de minha própria criação. Eu queria observar as ruas, os prédios e, principalmente, as pessoas do centro de Manaus. Porque cultura não está só nos livros ou nos prêmios:
“cultura é também essa cidade viva, sofrida, bonita e contraditória que insiste em nos contar suas histórias a cada esquina.”
Fotos: Museu do Porto. Acervo do Autor, José Rocha.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
Se você gostou desta crônica e deseja apoiar meu trabalho de pesquisa, memória e escrita sobre Manaus e a Amazônia, sua colaboração será muito bem-vinda. Quem quiser, pode enviar qualquer valor pelo Pix: 9299153-7448. José Martins Soares.
Meu muito obrigado!



