Por Jose Rocha – Caminhar pelo centro de Manaus é sempre abrir uma gaveta de memórias. E, numa dessas lembranças que insistem em nos puxar pelo braço, surge o imponente Cine Odeon, que reinava na esquina da Rua Saldanha Marinho com a Avenida Eduardo Ribeiro. Era um dos nossos templos mais luxuosos da sétima arte — daqueles em que a gente entrava até mais alinhado, porque o ambiente pedia. Mas, como tantas coisas boas que se perdem no vendaval chamado “progresso”, o Odeon cedeu lugar: foi vendido, demolido, e em seu lugar ergueu-se um edifício de vinte andares.
Para compensar a perda, o empresário Adriano Bernardino Filho lançou mão de uma ideia ousada e, em 20 de abril de 1977, inaugurou ali mesmo o Cine Shopping Center. Um brilho novo para tentar preencher o vazio deixado pelo Odeon — e também pelo Cine Avenida, que já havia fechado as portas, deixando Manaus órfã de suas casas mais refinadas de cinema.
Ainda tínhamos o Cine Guarany, o Polytheama e outros espalhados pelos bairros, mas nenhum oferecia o conforto e o charme daqueles grandes salões do centro. Então, numa jogada de mestre, Bernardino instalou o Cine Shopping Center dentro de um moderno centro comercial. Era luxuoso, refrigerado “no grau” que o manauara sempre agradece, equipado com o que havia de melhor. E tudo isso acessado por escadas rolantes — novidade que deixava os visitantes encantados. O cinema comportava 185 pessoas e apresentava o que havia de mais quente no cinema nacional e internacional.
Aquela época fervilhava. A Zona Franca atraía turistas de todos os cantos do Brasil. Era o tempo em que Manaus vendia de tudo: das quinquilharias mais duvidosas aos equipamentos mais modernos. Em meio a isso, eu, como tantos outros, era frequentador assíduo do Shopping Center.
E foi lá que testemunhei cenas dignas de cinema — mas, infelizmente, fora da tela. Bastava alguém quebrar o famigerado “Pum Alemão”, comprado nas lojas do comércio, e pronto: a sessão era interrompida instantaneamente. O mau cheiro era tão insuportável que o público saía em disparada para respirar um pouco de ar puro. Momentos tragicômicos que só quem viveu aquele tempo recorda com uma mistura de riso e indignação.
O fim veio silencioso, empurrado pela força dos grandes shoppings que chegaram à cidade, como o Amazonas Shopping, com suas salas modernas e múltiplas opções. O Cine Shopping Center fechou as portas, e o centro de Manaus ficou novamente sem uma sala de cinema para chamar de sua.
Hoje, com todo o esforço de revitalização do Centro Histórico — muito disso impulsionado pela Copa de 2014 — parece que falta apenas uma coisa: um novo Bernardino com coragem para reacender a chama do cinema no coração da cidade. Porque, convenhamos, o Centro merece um cinema tão elegante quanto as histórias que ainda guarda em silêncio.
E nós, que assistimos a tudo isso, seguimos esperando que as luzes da velha sala se acendam outra vez.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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