Por José Rocha – Dizem que toda cidade guarda seus segredos — uns escondidos nos casarões antigos, outros enterrados sob a poeira das ruas. Manaus, tão senhora de si, também carrega um desses segredos em seus trilhos silenciosos. Basta caminhar pelo Largo de São Sebastião, deixar o olhar escapar pela Avenida Eduardo Ribeiro, e lá estão eles: pedaços de ferro que insistem em lembrar que já fomos uma cidade atravessada por bondes elétricos, velozes e orgulhosos.
Muito já se escreveu sobre a chegada desses bondes ao Amazonas, ainda no governo de Eduardo Ribeiro, quando o engenheiro Pereira Passos trouxe as primeiras unidades e, com elas, uma sensação de modernidade que arrebatou a população. Por décadas, os bondes foram companheiros fiéis da rotina dos manauaras, deslizando com elegância pelas avenidas da Belle Époque.
Mas esta crônica não é sobre a glória; é sobre o adeus. Sobre o fim da linha.
A história começa a mudar durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto o mundo se armava, Manaus se desarmava: as peças necessárias para manter os bondes funcionando simplesmente deixaram de chegar. O mercado estava fechado, a produção voltada ao esforço bélico, e nossos elétricos — coitados — começaram a andar cambaleantes, sobrevivendo como podiam nos trilhos que já conheciam tão bem.
Terminada a guerra, a situação não melhorou. Pelo contrário. A Manaus Tramways foi encampada em 1950, mas o estado dos carros era tão precário que, em 1954, bastou a cidade enfrentar sérios problemas de energia para que os bondes se tornassem vítimas inevitáveis da escuridão. Sem luz, sem peças, sem manutenção — sem futuro.
Veio 1955. O governo tentou ressuscitar o sistema. Pintaram, remendaram, empurraram… mas o povo não se deixou enganar. O manauara tem faro apurado para promessas improváveis. A zombaria tomou conta das ruas: “Querem nos iludir”, diziam. E estavam certos. Os bondes estavam imprestáveis, e o dinheiro público, jogado fora. No fim, todos os carros foram abandonados na garagem depois da Ponte Benjamin Constant, a velha Ponte de Ferro, ali na Cachoeirinha.
Ainda houve uma tentativa derradeira em 1956, com apenas nove bondes circulando, como pacientes terminais tentando dar seus últimos passos. Em 1957, algumas linhas de carga resistiram, mas já era luta perdida. O cabeamento elétrico só seria totalmente removido em 1962 — uma espécie de último suspiro burocrático.
Em 11 de abril de 1960, o jornal A Crítica publicou uma matéria de título doloroso: “Cemitério dos bondes de Manaus”. A fotografia mostrava os velhos carros depredados, desmontados, servindo de depósito de sucatas. A reportagem lamentava:
“Estava, definitivamente, sepultada a hipótese de Manaus voltar a possuir bondes…”
E era verdade. Sepultada estava.
Houve investigações, trocas de acusações, discursos inflamados de vereadores, líderes comunitários, representantes sindicais. Todos se queixaram, mas ninguém conseguiu evitar o destino final: o sucateamento completo. Faltaram fiscalização, planejamento e, principalmente, interesse público.
Hoje, quando os jovens passeiam pelo Largo de São Sebastião, pela esquina da Avenida Eduardo Ribeiro com a Rua Dez de Julho, e mesmo onde antes surgiam trilhos ao lado da Igreja dos Remédios — agora sepultados pelo asfalto recente — veem trechos dos antigos trilhos emergindo discretamente do chão. Talvez nem imaginem que por ali passaram os bondes das linhas Remédios, Saudade e Plano Inclinado… nomes poéticos que, curiosamente, combinam com o que sentimos ao recordar essa época.
De vez em quando algum político promete revitalizar os bondes, trazê-los de volta para fins turísticos, como fazem em outras cidades. Ideia bonita, fotografável, encantadora — mas que, até agora, não passou de promessa eleitoral.
E assim ficamos nós, com a memória nas mãos e os trilhos sob os pés. Os bondes, que um dia foram símbolo de modernidade, hoje pertencem ao território da saudade. E tudo indica que o seu ponto final, aquele último realmente final, chegou para sempre.
Mas, como toda crônica que se preze, deixo uma fresta aberta: em Manaus, até o que é enterrado às vezes insiste em brotar de novo. Quem sabe um dia?
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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