Da Redação
Ir ao cinema em Manaus costumava ser o “programa de domingo” oficial do manauara: acessível, refrescante (literalmente, fugindo do calor) e divertido. Porém, em 2026, a realidade nas bilheterias da capital amazonense reflete um cenário excludente. O que era diversão virou cálculo financeiro, e para muitos, inviável.
Uma leitura atenta da recente matéria publicada pelo portal Barelândia, assinada pelo colunista Vinícius Andrade, intitulada “Cinema em Manaus é só ‘facada’“, ecoa um sentimento generalizado: o cinema virou artigo de luxo.
A “Facada” Diagnosticada pelo Barelândia
O texto de Andrade toca em feridas abertas do consumidor local. O colunista destaca a decepção com um cinema específico da Grande Circular (identificado em nossas apurações como o Centerplex do Shopping Grande Circular), que outrora era bastião de preços populares com a promoção “todos pagam meia”. A crítica central reside na mudança de política: grandes lançamentos, como Deadpool & Wolverine (e a expectativa para outros blockbusters de 2026), foram excluídos das promoções automáticas.
O artigo do Barelândia levanta pontos cruciais:
O Fim da Acessibilidade: A sensação de traição do consumidor fiel da Zona Leste, que viu seu cinema de bairro adotar práticas de preços “de elite” sem melhorar o serviço.
A Barreira dos R$ 100: O autor cita que um casal pode gastar mais de R$ 100 apenas em dois ingressos. Pode parecer exagero para alguns, mas é a realidade nua e crua dos shoppings mais nobres da cidade.
O “Golpe” da Pipoca: A menção à proibição (ilegal) de entrada com alimentos de fora reforça a prática de venda casada velada, onde o lucro migra da bilheteria para a bombonière a preços astronômicos.
A Realidade em Números: O Custo Manaus 2026
Ao expandirmos a análise do Barelândia com dados atuais do mercado manauara neste início de 2026, o cenário é ainda mais alarmante do que o relato pessoal sugere.
Uma rápida verificação nas tabelas de preços das principais redes em Manaus confirma a tese da “facada”:
UCI Manauara: Um ingresso “inteira” para sessões de sexta a domingo pode chegar a R$ 73,00. Ou seja, um casal pagando preço cheio gasta R$ 146,00 apenas para entrar na sala. Se adicionarmos um combo médio de pipoca e refrigerante, o passeio ultrapassa facilmente os R$ 200,00. Isso representa quase 15% de um salário mínimo atual apenas por duas horas de entretenimento.
UCI Sumaúma: Embora ligeiramente mais barato, ainda cobra cerca de R$ 40,00 na inteira aos finais de semana.
Cinépolis e Centerplex: Redes que historicamente ofereciam ingressos na casa dos R$ 20-30 estão reajustando tabelas ou limitando a meia-entrada, forçando o consumidor a caçar dias específicos de promoção ou depender de convênios de operadoras de telefonia e bancos.
Conclusão: O Cinema é para Quem?
A crítica do portal Barelândia é um recorte fiel de uma Manaus onde o lazer está sendo gentrificado. Quando um cinema na Grande Circular — área densamente povoada e de perfil trabalhador — começa a emular as práticas de preços dos shoppings da Zona Centro-Sul, o recado é claro: o lucro imediato está valendo mais do que a fidelização do público.
Enquanto promoções esporádicas como a “Semana do Cinema” (com ingressos a R$ 10 ou R$ 15) são tratadas como eventos raros, o dia a dia do cinéfilo manauara é de malabarismo. Se as redes não reverem essa escalada de preços, as salas escuras de Manaus correm o risco de se tornarem mausoléus de luxo, visitados apenas por uma elite, enquanto a grande massa migra de vez para o streaming no sofá de casa.
Como bem pontuou Vinícius Andrade: ir ao cinema em Manaus, hoje, não é só lazer; é um rombo no orçamento.



