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Pitty: 20 anos do incrível e arrasador “Admirável Chip Novo”

Por Filipe Vasconcelos – “Admirável Chip Novo tem peso, tem qualidade sonora e músicas inesquecíveis”

Admirável Chip Novo completa 20 anos de lançamento. O primeiro álbum da cantora baiana, Pitty, arrebatou os corações de um público adolescente (o qual eu fazia parte na época) que estavam vivendo o inicio de uma nova era muito interessantes para o rock nacional. Naquele período a variedade sonora era muito mais abrangente, até do que dos anos 80. O punk/hardcore do CPM 22 ganhava as rádios, o Detonautas Rock Clube apostava numa mesclagem de música eletrônica com rock, o Matanza mistura country com música pesada e nisso veio a Pitty, que apostava num som muito mais cru, mas com letras que fugiam do óbvio.

Eu preciso ser sincero, escutando esse disco hoje, eu fico impressionado que a Pitty tenha conquistado o mercado com esse trabalho. Se analisarmos friamente os temas abordados pela cantora, nada ali era radiofônico ou de fácil compreensão. Nem mesmo a balada “Equalize” que foi o maior estouro do álbum, é tão óbvia como aparentou ser. Quero dizer, esse disco tinha tudo pra ter sido ignorado e esquecido, o que felizmente, não aconteceu. A começar pela canção título, “Admirável Chip Novo” uma referência ao livro “Admirável Mundo Novo”, do escritor inglês, Leonard Huxley, publicado em 1932. O livro aborda manipulação genérica e desenvolvimento da tecnologia reprodutiva.

Capa: Admirável Chip Novo – Pitty

Seguindo essa alegoria, Pitty fala na canção sobre a manipulação social, sobre a necessidade de não seguir o que já pré-escolhido, usando como metáfora um robô, que acorda e se dá conta de que é programado por pessoas mais poderosas que ele para fazer o que deve ser feito pelo bem de um coletivo. Interessante? Sim, e mais ainda a forma com que a letra abrange um tema tão complexo de forma tão simples e genial, através de um refrão com verbos imperativos que fazem o ouvinte se sentir inserido no contexto social da canção “pense, pare, compre, beba, leia, vote, use, seja, ouça, diga”. A crítica ao consumismo, ao conformismo que ainda assombrava a juventude no inicio dos anos 2000 e a busca por autoconhecimento, são temas que permeiam não só a faixa título, como todo o disco.

Pitty se mostrou uma letrista incrível em muitas outras músicas desse álbum, como “Teto de Vidro” que fala sobre se por no lugar do outro e saber observar e entender o que se passa ao nosso redor. O mesmo tipo de temática se observa em “Do Mesmo Lado”. Outra canção do disco, que foi muito executada nas rádios na época, “Máscara” fala exatamente aquilo que, infelizmente, falta na sociedade atual, sobre ser você mesmo sem se preocupar com julgamentos. Num período onde juízes e ministros prendem sem o devido julgamento, ser você mesmo se torna um ato de revolução. Se formos comparar a sociedade atual com os temas abordados num disco de rock em 2003, “O Lobo” também se torna muito atual, música que comparada às relações de poder com a voracidade da condição humana de querer ser mais que o outro, não importa o custo disso.

Divulgação: Admirável Chip Novo

Outra faixa totalmente contrária ao clima romântico que outros artistas abordavam na época é “Semana que Vem”, que fala sobre não deixar nada para depois, uma vez que não sabemos quanto tempo temos, e que a vida precisa ser vivida intensamente todos os dias. Como eu disse, o talento de Pitty como letrista fica evidente até em uma música que parece uma boba balada romântica. “Equalize” que usa palavras doces e diretas para, aparentemente, falar sobre a saudade e a paixão, é nada menos, que uma metáfora para a masturbação, fato que a cantora só revelou anos depois em entrevistas. Trechos como “Já vi que não posso ficar tão solta e vem logo aquele cheiro que passa de você pra mim” e “eu vou equalizar você numa frequência que só a gente sabe” se tornam mais óbvios quando passamos a entender a intenção da mensagem. O problema não é o tema, mas a forma como é abordado, e essa música mostra como é possível falar de temáticas mais “quentes” sem ser desrespeitoso ou vulgar. Os atuais artistas do funk poderiam aprender um pouco com isso!

“Admirável Chip Novo” é um daqueles discos que se tornou popular e radiofônico pela sua qualidade musical; seja pelas letras bem construídas, seja pelo peso das guitarras, da pegada visceral da bateria, ou mesmo da voz de terremoto da Pitty, que não só interpreta bem as canções, como se mostra uma eximia cantora. Enfim, o fato é, esse disco não tinha absolutamente nada de óbvio, nada de radiofônico, nada que poderia chamar atenção de uma juventude que não estava disposta a pensar, mas prestou atenção na mensagem das canções, e catapultou a Pitty para um sucesso insano.

Divulgação

Sabemos que, no Brasil, pra fazer sucesso, a música precisa ser de fácil assimilação, e no caso de uma mulher, o corpo precisa fazer parte do produtor, com os maiores elementos de sensualidade possível, Pitty foi totalmente contra essa maré, fez tudo aquilo que não era tendência, ela foi “ela mesma, mesmo sendo bizarra” e conquistou um público fiel. E vale ressaltar que fugir do óbvio é uma característica que se manteve o padrão de Pitty em todos os seus álbuns posteriores.

“Admirável Chip Novo” é um disco que, não só envelheceu bem, como parece ser muito mais atual do que quando foi feito em 2003. É um disco de rock pesado, do jeito que não se vê mais atualmente, com atitude, boas canções e digno de toda a atenção que recebeu. Esse ano a Pitty vai comemorar esse “aniversário” com um relançamento remasterizado do disco, algo que eu estou muito ansioso pra ouvir.

*O autor é estudante de jornalismo e músico

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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