Por José Rocha – Morei no Conjunto dos Jornalistas desde 1982. Meu filho mais velho tinha apenas um ano quando chegamos; depois dele nasceram mais dois, todos criados entre ruas tranquilas, vizinhos antigos e aquele cheiro de mata que, naquela época, ainda abraçava o nosso condomínio.
Desde o início, a natureza sempre foi nossa vizinha mais fiel. Era comum ver macacos-de-cheiro saltando de galho em galho, araras cortando o céu com gritos fortes, cotias passando apressadas como quem tem hora marcada e até jacarés surgindo nos igarapés que serpenteavam discretamente pelas redondezas. Sem falar nos passarinhos, nos camaleões, nas pererecas, nos tucanos, nos periquitos tagarelas — um desfile diário da fauna amazônica que convivia conosco como se fôssemos parte da mesma aldeia.

Com o tempo, muita coisa mudou. A mata foi cedendo espaço para novos conjuntos habitacionais, avenidas, obras, poeira, cimento. Vi árvores centenárias desaparecerem e o Igarapés dos Franceses ser engolido pelo progresso apressado. E, ainda assim, apesar de toda a transformação, os animais continuam aparecendo. Persistem. Resistentes, silenciosos, quase como guardiões da memória do lugar.
Hoje, ao visitar minha filha e os netos queridos, quando encontro um macaco-de-cheiro passeando sobre a ponte que liga dois blocos — exatamente como aconteceu nesta manhã — sinto que a floresta ainda nos visita para lembrar de onde viemos. Um recado manso e insistente de que a Amazônia nunca esteve longe: ela apenas se esconde onde ainda consegue respirar.

E enquanto esses pequenos visitantes continuarem surgindo, mesmo tímidos e desconfiados, o Conjunto dos Jornalistas seguirá tendo um pouco do encanto de antigamente — aquele encanto de quando meus filhos eram pequenos e a natureza fazia parte do cotidiano, não como surpresa, mas como vizinha.
Porque, no fundo, a floresta nunca nos abandona. Nós é que precisamos aprender a não abandoná-la. 🌳✨
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O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



