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A Inauguração do Balneário do Parque Dez de Novembro

Por José Rocha – Há textos que são documentos. E há memórias que, antes de serem guardadas no papel, vivem acesas dentro da gente, como brasas que o tempo não apaga. Esta é uma mistura dos dois.

A história começa em 10 de novembro de 1938, quando o interventor Álvaro Maia e o prefeito Antônio Maia deram início a um sonho: construir, em Manaus, um dos mais belos parques de recreação da Região Norte. A obra seguiu com o Prefeito Paulo Marinho e foi concluída na administração de Antovilla M. Vieira.

E assim, no dia 19 de abril de 1943, data do aniversário de Getúlio Vargas, Manaus assistiu à inauguração do Parque Dez de Novembro, com presença de autoridades, da alta sociedade e até de uma “girl” norte-americana — cena que, à época, causou enorme curiosidade.

Mas antes de continuar, deixo que o próprio Prefeito Antônio Maia descreva, em relatório de 1940, a grandeza do que estava sendo construído. Suas palavras — tão cheias de convicção e de um certo idealismo que hoje parece distante — merecem ser preservadas:

“Com o pensamento dirigido para o robustecimento da raça pela cultura física da infância e juventude, à semelhança do que realizaram os povos que plantaram marcas na história da humanidade pelo esplendor de suas civilizações… tomamos a decisão definitiva de construir um grande parque onde os nossos jovens compatriotas do Amazonas poderão travar contatos íntimos com as forças da natureza…”

O parque era monumental:
– 50 hectares de bosque natural;
– um trecho do Igarapé do Mindú transformado em piscina de águas cristalinas com forma de “L”;
– barragem, comportas, cachoeira artificial;
– bar-dancing em estilo colonial;
– pavilhão de dois andares;
– um pavilhão japonês;
– piscina infantil moderna;
– quadras de tênis, vôlei e basquete;
– um enorme playground com equipamentos importados;
– e o famoso Deslizador Racer Slide, por onde 11 mil crianças podiam deslizar em poucas horas.

Hoje tudo isso parece quase fantasia — mas existiu. É história. Está nos relatórios, nos jornais, nos raros registros.

Mas a parte que aperta o coração vem agora.

Eu frequentei o P10 na década de 1960. Era apenas um curumim, de mãos pequenas segurando as mãos de meus pais. Lembro do cheiro das castanheiras, do vento frio que corria pela água, das manhãs de domingo cheias de risos, das toalhas estendidas na relva, dos “piniques” preparados com carinho, das conversas sem pressa. Lembro das águas claras que pareciam correr mais devagar quando a gente mergulhava.

Lembro, sobretudo, da sensação de segurança, alegria e união — algo que só existe quando estamos cercados por quem amamos e ainda não sabemos o que é perder.

Cada pedaço daquele parque era parte da minha infância.
Cada árvore guardava um segredo.
Cada domingo parecia durar para sempre.

Hoje, quando releio a descrição oficial do balneário, sinto como se estivesse abrindo uma porta no tempo. Aquelas palavras frias, técnicas, retomam forma, cor, voz — e de repente volto a ser o menino que corria pela margem, com o sol batendo no rosto e o coração leve, sem imaginar que um dia aquele lugar se tornaria ruína… e minhas lembranças, tesouro.

O P10 não era apenas um parque.
Era uma época.
Era uma família.
Era um Brasil que hoje existe só dentro da gente.

E talvez por isso doa tanto — essa saudade que arde mas consola. Porque lembrar é fazer viver de novo. E enquanto houver quem conte, o velho Parque Dez de Novembro nunca será esquecido.

É isso aí.
E que Deus conserve, no fundo de cada memória, o menino que fomos.

Fonte & Fotos: Jornal A Crítica
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O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

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