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quarta-feira, junho 3, 2026
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A Villa Martins

Por José Rocha – Ficava na Avenida Leonardo Malcher, 1141, Centro de Manaus. Era um casarão da época da “Belle Époque” amazonense, provavelmente construído no início do século passado por um rico seringalista. Possuía um pavimento superior todo em alvenaria, com duas entradas laterais, e a parte inferior com portas em forma de arco, típicas de estrebarias.

O termo villa (do latim) era, na Roma Antiga, uma casa de campo, uma residência campestre. Em todos os registros de jornais antigos, a Villa Martins aparece com dois “l”.

Alguns historiadores relatam que aquela imensa casa pertencia a um seringalista. Nos mesmos periódicos, comentam sobre a existência de um seringal com o mesmo nome, no rio Tarauacá, onde hoje fica a cidade de Eirunepé, no Amazonas.

Presumia-se que pertencia ao mesmo dono: a família Martins.
Olha a coincidência: a minha família nordestina era “Martins”, derivado do italiano Martinus, que significa “guerreiro” ou “dedicado a Marte”, o deus da guerra — planeta que o Elon Musk pretende povoar num futuro próximo.

Eu prefiro ficar e morrer aqui mesmo no nosso planetinha Terra; quem quiser ir para Marte, que vá. Eu sou mais ficar na minha Manaus e no coração da Amazônia. Vai que, sei lá, de repente sou contratado pela NASA — ou pelo Buteco da Naza — para escrever um monte de besteiras para os marcianos sorrirem e entenderem como era a minha vida na distante “Manaus Sorriso”!

Voltando ao nosso planetinha, guardo boas lembranças daquele local. Fui morador da Rua Tapajós, que ficava bem próxima a essa Vila, onde grande parte dos meus colegas da adolescência morava.

A mais famosa moradora foi Messody Serruya Israel, que nasceu na Villa Martins. Foi eleita, em 1979, Rainha do Carnaval, representando o Akiko’s Cabelereiros e, posteriormente, Miss Amazonas pelo Clube Sírio-Libanês. Em 1980, ela foi trabalhar na famosa Revista Eficaz, editada pelos fiscais da Secretaria de Fazenda. Seu irmão, Abrahão Serruya, foi delegado da Polícia Civil do Amazonas.

Em 1988, o Jornal do Commercio fez uma reportagem denominada “O Paraíso da Villa Martins”, da jornalista Ana Célia Ossame.

Naquela época, moravam 20 famílias muito unidas. Por lá nasceu Francisco Assis de Souza, que morava com seus cinco filhos. Seus pais chegaram à Villa em 1926.

As casas eram pequenas, sem muito conforto, mas muito estratégicas por estarem no centro da cidade. Os primeiros quartos da parte superior eram de alvenaria; os restantes, de madeira.
Segundo o senhor Francisco:

“A vida era tranquila, ninguém se incomodava com ninguém, não havia fofocas nem brigas entre vizinhos. Os moradores eram tradicionais e permaneciam por muito tempo por lá. Moravam velhos e novos moradores, com alguns pagando até um valor irrisório no aluguel.”

Segundo a mesma reportagem, em 1988 ainda morava no local o senhor Moisés Serruya, motorista profissional e pai da Miss Amazonas.

Ele gostava de se embalar numa cadeira na varanda da casa e tinha orgulho de ser pai da miss, que já não morava mais ali. Declarou:

“Estou afastado por problema de saúde, mas aqui é tudo calmo. Não sou incomodado pelos vizinhos, nem pelo barulho das crianças.”

Também morava por lá Eliana Serruya, que já tinha conseguido uma casa no Conjunto Cidade Nova, mas mantinha um comércio na Villa, onde vendia alimentos e refrigerantes. Pagava dois mil cruzados de aluguel.

Outra moradora entrevistada foi Dona Lourdes Santos, que morava ali havia 27 anos.

Ela declarou:

“Estou doente e cansada, mas tudo o que se pode falar daqui é que a vida é tranquila.”

Para concluir a reportagem, a jornalista Ossame escreveu:

“Na grande Manaus das propagandas oficiais, as vilas, estâncias e moradias sem condições acabam destoando da Villa Martins, que se livra da especulação imobiliária que atinge boa parte dos brasileiros.
Não é difícil encontrar um morador que compare a Villa a um paraíso, principalmente pelo preço do aluguel, dada a localização do imóvel e a tradição dos moradores.”

Infelizmente, esse paraíso que era a Villa Martins não venceu a fúria devastadora do progresso e foi ao chão, assim como centenas de outros prédios antigos, pois não eram tombados (protegidos por lei).

Todos os moradores tiveram que sair do local, depois de longos anos vivendo em comunhão. O proprietário vendeu o imóvel para dar lugar a um prédio moderno, que abriga, atualmente, uma faculdade de Estudos Sociais da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Os moradores mais antigos, que ainda vivem no entorno, quando alguém comenta com menosprezo sobre a Villa Martins, rebatem na hora:

“A Villa Martins é pura história — e ali nasceu uma Miss Amazonas.”

Sou um cidadão que gosta e insiste em voltar ao passado e relembrar os bons tempos, e lembrar da Villa Martins, onde ficou plantada uma parte das minhas memórias, que gosto de compartilhar com vocês que amam de paixão a nossa cidade.

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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