Por José Rocha – Dezembro passado trouxe-me um presente inesperado: duas cirurgias, uma em cada olho, para corrigir a catarata. O cristalino, aquela lente natural que aos poucos se tornava opaca, foi substituído por uma artificial. Ainda estou em recuperação, mas já voltei a enxergar para longe. Para perto, continuo com os óculos, companheiros de longa data.
Entrei no programa estadual chamado Mutirão da Catarata, que devolveu a esperança a milhares de pessoas acima dos 60 anos. Muitos já haviam desistido de acreditar que poderiam recuperar a visão, pois a autorização para a cirurgia costumava levar anos. Havia quem esperasse na fila por uma década inteira, sem ser chamado.
Quem tem recursos abundantes recorre à medicina privada: lentes importadas, multifocais, que dispensam os óculos para sempre. Para nós, os menos abastados, resta o SUS, com suas lentes monofocais. Elas devolvem a visão para longe, e em alguns casos até para perto. Cada paciente é uma história diferente.
A cirurgia, dizem os médicos, é simples e pouco invasiva. Mas exige disciplina: colírios na hora certa, repouso absoluto, acompanhamento rigoroso. Cada corpo reage de um jeito, cada recuperação é única.
A minha aconteceu na clínica OFALCENTER, na Avenida Joaquim Nabuco. Nos dias de exames e consultas, vi corredores abarrotados, dezenas de cirurgias acontecendo diariamente. Um verdadeiro mutirão. Confesso: dá medo. Mas desistir não era opção.
Nos primeiros dias, tudo parecia embaçado. Ainda não estou cem por cento. O olho direito aguarda um procedimento chamado YAG Laser, para “limpar a lente”. Enquanto isso, convivo com as famosas “moscas volantes”, que dançam diante dos meus olhos.
E como se não bastasse, a lei do mercado também se faz presente: remédios pós-operatórios em alta procura, preços nas alturas. A própria clínica, que recebe milhões do governo, vende colírios a valores salgados e cobra caro pelo procedimento de limpeza. Quem não pode pagar, aguarda pelo SISREG.
Apesar de tudo, sinto gratidão. Voltei a reconhecer rostos do outro lado da rua, a assistir televisão sem óculos, a ler palavras pequenas sem esforço. E as cores… Ah, as cores! Descobri que o mundo é mais bonito do que lembrava. O celular, por exemplo, ganhou uma nitidez que eu não via há anos.
Espero que em breve minha visão esteja cem por cento. Que os óculos fiquem apenas para perto e que o laser faça seu trabalho. Mas, acima de tudo, celebro o fato de ter entrado neste Ano Novo com uma visão nova — no sentido literal e também no simbólico. Porque enxergar melhor é, de alguma forma, viver melhor.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



