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InicioColunistasCrônicas do José RochaCauso Amazônico - A égua da velhinha e o cavalo do fazendeiro

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Causo Amazônico – A égua da velhinha e o cavalo do fazendeiro

Contado por Pedrinho Ribeiro (show no Teatro Amazonas) – in memoriam

Recontado por José Rocha – Lá pras bandas de Parintins, no Baixo Amazonas, morava uma velhinha já bem de idade que criava, com todo carinho do mundo, uma égua chamada Thereza. Do lado do terreno dela vivia um fazendeiro cheio de si — dono de milhares de cabeças de gado Nelore e criador de cavalos Manga-Larga puro-sangue. Homem mandão, desses que acham que dinheiro compra até o que não está à venda.

Pois bem. Um dia, a égua da velhinha entrou no cio — e entrou daquele jeito, pegando fogo. O cavalo do fazendeiro, atrasadíssimo no “serviço”, sentiu o cheiro, pulou a cerca como se fosse uma fita de São João e pimba: fez o que a natureza manda.

Meses depois, percebendo que Thereza estava prenhe, o fazendeiro mandou um peão avisar:

— O patrão mandou dizer que, quando nascer o potrinho, ele é dele. Tá entendido?
O rapaz ainda completou, em tom de ameaça:
— E se ela não entregar… é pra resolver no chumbo!

A velhinha ainda tentou argumentar:

— Mas, meu filho… quem quebrou minha cerca foi o cavalo do seu patrão! Ele veio até aqui e cruzou com minha eguinha sem eu permitir. O potro vai ser criado no meu terreno!

O peão riu debochado:

— Conversa fiada. Já tá decidido!

A intervenção do lendário Dr. Papa-Tudo

O caso rodou a cidade inteira até chegar aos ouvidos do famoso Dr. Papa-Tudo — figura lendária que frequentava os botecos da Baixa do São José, diplomado em “Direito” pela famosa “Universidade da Rua Mauá”, no baixo meretrício de Manaus.

Era rábula valente, defensor de causas impossíveis e, dizem, nunca perdeu uma.

Indignado com a injustiça, resolveu defender a velhinha de graça, só para derrubar a arrogância do fazendeiro.

O julgamento mais doido da história de Parintins

O fazendeiro chegou ao Fórum acompanhado de seu advogado, o doutor Enrolando Lero — todo engravatado, de Rolex no pulso, anel de rubi e paletó de grife, só pra intimidar.

Do outro lado, entrou o Dr. Papa-Tudo: paletó único e gasto, gravata “Maestro” (tão comprida que batia no instrumento), barba por fazer e cheiro forte de cachaça 61. Mas era ali, no jeitão dele, que morava a genialidade.

O advogado do fazendeiro começou:

— Meritíssimo, meu cliente é rico, respeitado, tem condições de criar o potro com todo cuidado. Já ajudou a velhinha, arrumou cerca, tratou da égua… Ela é pobre, não tem como criar um animal de raça. O melhor a fazer é deixar o potro com o meu cliente.

Quando todos achavam que estava decidido, levantou-se o Dr. Papa-Tudo.

— Meritríssimo…

O juiz, já meio calibrado de caninha, retrucou na hora:

— Me respeite! Não sou filho de rapariga!

Papa-Tudo respirou e mandou a lógica mais maluca já vista num fórum amazônico:

— Desculpe, meritríssimo… mas supunhetamos que o senhor seja uma égua no cio… e eu um cavalo puro-sangue, atrasado, que pula a cerca e pega o senhor até o tucupi!

O juiz saltou da cadeira:

— Vai pegar é o caralho! Eu sou espada!

Mas o rábula continuou:

— Mas é só suposição, meritríssimo! Vamos imaginar: depois de “arrolado”, o senhor fica prenhe. Passam-se os meses, nasce o potro. A pergunta é: ele é de quem? De quem? DE QUEM?!

O juiz, já no limite, gritou tão alto que rodou a ilha:

— É DA PUTA QUE O PARIU!!!

Pronto.
A sentença estava dada sem ele perceber.

O potro continuaria com a égua da velhinha, e o fazendeiro perdeu a causa.

Fim da prosa

A velhinha festejou, o Papa-Tudo tomou umas no Comuna’s Bar, e Parintins ganhou mais um causo inesquecível.

E assim ficou guardada, graças ao querido Pedrinho Ribeiro – in memoriam, essa história boa de se ouvir, boa de se contar, e melhor ainda de recontar.

Égua! Sai pra lá, cavalo!

O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.

Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores. É permitida sua reprodução, total ou parcial desde que seja citada a fonte.

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