Por José Rocha – No final do século XIX e início do XX, a cidade de Manaus vivia seus dias de esplendor. Rica, elegante e vaidosa, gostava de imitar tudo o que vinha da Europa. Era o tempo dos saraus, dos cafés, das óperas — e também dos esportes que davam charme e distinção às tardes à beira do Rio Negro. Entre eles, o remo, conhecido como o esporte dos fortes, conquistou de vez a elite manauara.
Nas manhãs de domingo, o Roadway, atual Porto de Manaus, transformava-se em arquibancada fluvial. Homens de paletó branco, senhoras com vestidos de renda e sombrinhas de seda, todos se reuniam para assistir às regatas. Havia equipes portuguesas, inglesas e alemãs, mas uma delas sobressaía pelo vigor e pela organização: o Manáos Ruder Klub, que mais tarde passaria a chamar-se Clube do Remo.

A equipe alemã mantinha sua base — a famosa Garage — no início da Primeira Ponte da Sete de Setembro. Era ali que os barcos ficavam guardados durante a enchente, e na vazante, eram levados até a bacia do bairro de Educandos, acompanhando o pulso do rio.
Por volta de 1910, o clube possuía também uma sede social elegante, localizada na Rua João Coelho (atual Avenida Constantino Nery), esquina com a Leonardo Malcher. Chamava-se Deutscher Club (Clube Alemão). O prédio era um verdadeiro palacete: salões de dança, boliche, espaço para reuniões, troféus reluzindo em vitrines e o orgulho dos imigrantes que ajudaram a erguer nossa cidade.
Mas o tempo e a história nem sempre são generosos. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, os alemães que viviam em Manaus foram perseguidos. O clube foi fechado, abandonado e, mais tarde, expropriado pelo governo de Getúlio Vargas.
Em 1944, o interventor Álvaro Maia destinou o prédio ao Olímpico Clube (5 Aros), que permaneceu ali até os anos 1970, quando se mudou para o Boulevard Amazonas.
O elegante palacete foi, então, perdendo sua nobreza: virou boate — a famosa Starchip —, depois farmácia, padaria, e finalmente ruína. Hoje, quem passa pelo local e ergue os olhos ainda pode ver, à direita, o antigo telhado original, último suspiro de um tempo em que o progresso ainda tinha alma.
Com o fim da guerra e a fuga dos alemães, até o nome da “Garage” mudou — Manáos Ruder Klub passou a chamar-se Clube do Remo.
Na minha infância, ainda tive o privilégio de conhecer aquele flutuante de ferro, imponente, com boias e uma abertura central por onde os barcos entravam para serem guardados e consertados.
Acredito que seja o mesmo flutuante que hoje ainda repousa, silencioso, no início da Ponte de Educandos, servindo de abrigo a pequenas embarcações e canoas particulares. Sua estrutura é idêntica àquela construída pelos alemães — sólida, austera, resistente ao tempo.
Não sei ao certo como anda o remo no Amazonas nos dias de hoje.
Mas uma coisa é certa: o Esporte dos Fortes foi, e sempre será, parte da nossa história.
O Clube do Remo de Manaus permanece vivo na memória da cidade — na lembrança das regatas, das manhãs de sol sobre o Rio Negro, e daquele flutuante que, ancorado na minha infância, ainda parece remar no tempo.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



