Por José Rocha – Um avião que pousava na imensidão dos rios do nosso Amazonas, levando e trazendo passageiros, missionários, remédios, doentes, correios, além de mantimentos para os seringais e locais isolados onde somente os rios eram estradas que ligavam à capital Manaus — ficou no imaginário caboclo por apelidos: “Pata Choca”, “Pássaro de Aço” e “Boi Voador do Amazonas”.
Foram fabricados pela empresa norte-americana Consolidated PBY Aircraft (entre 1936 e 1945), em bom português “cón-solê-dei-tid pi-bi ércraft”, batizado em homenagem à Ilha de Santa Catalina, na Califórnia, nos Estados Unidos — um nome em espanhol em homenagem a Santa Catarina, mas por ser parecido com a pronúncia em português, pegou muito bem entre a população amazonense.
A Panair do Brasil, nos anos 1930, assumiu um papel decisivo na integração da Amazônia.
Com apoio do governo federal, inaugurou o serviço entre Belém e Manaus, pousando em rios e atendendo cidades ribeirinhas sem acesso terrestre. Somente um avião anfíbio poderia operar na maior parte das localidades da região amazônica, utilizando os próprios rios como pista, e o Catalina se adequou perfeitamente ao serviço.
Mais de 40 cidades da região amazônica foram atendidas por linhas regulares formadas por hidroaviões Catalina operados pela Panair do Brasil, que ficou conhecida como a “Senhora do Norte”.
A Panair perdeu suas concessões e foi fechada em 1965 pelo governo militar, provocando o isolamento relativo de diversas localidades da Amazônia, pois nenhuma outra empresa brasileira operava tais aeronaves nos anos 1960 — somente a Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul deu continuidade por algum tempo.
Serviu também para a logística do segundo ciclo da borracha, na Segunda Guerra Mundial (1939–1942), pousando no Rio Negro, ao lado da Ilha de Monte Cristo (atual estacionamento da Feira da Manaus Moderna), onde ficava a RDC — Rubber Development Company —, uma empresa norte-americana que comprava toda a produção de borracha dos amazonenses, num esforço do governo brasileiro para ajudar os aliados, que haviam perdido a borracha da Malásia para os japoneses. Foi operado também pela FAB para patrulhamento do litoral brasileiro durante a guerra.
Após o término da Segunda Guerra, os Catalinas operavam em flutuantes adaptados como hidroportos improvisados, localizados no bairro de Educandos, em Manaus, às margens do Rio Negro, onde existe até hoje um porto e a famosa “Feira da Panair”, chamada carinhosamente de “Pané”. O nome Catalina ficou tão famoso que virou até marca de maiôs que patrocinava desfiles de misses do Amazonas.
Sem dúvida, um de seus papéis mais importantes foi fora da guerra, transformando-se em um verdadeiro salva-vidas aéreo para populações ribeirinhas e cidades isoladas, especialmente a partir de Manaus. Pousava na água, podia usar rios como pista numa região de selva densa e poucas estradas — a robustez e a capacidade tornavam o Catalina praticamente imbatível.
Além disso, tinha grande autonomia: voos longos entre Manaus, Tefé, Coari, Parintins, Santarém e outras localidades eram feitos sem dificuldade, levando passageiros, mercadorias, correio, médicos, missionários e, muitas vezes, doentes em emergência. O Catalina virou avião, barco, ambulância e caminhão, tudo ao mesmo tempo.
Muitas dessas rotas passavam por vilas ribeirinhas, pousando diretamente em frente às comunidades — os ribeirinhos corriam para ver o Catalina taxiando na água, abrindo seus grandes flutuadores laterais como asas de barco.
Os gozadores de plantão gostavam de contar que alguns caboclos, ao entrar no possante “Barco Voador”, perguntavam: “Onde amarro a minha rede?”
Com o surgimento de pistas de pouso ao longo dos rios Solimões e Madeira e a chegada de aeronaves mais modernas — como o Embraer Bandeirante, o Cessna Caravan e o Douglas DC-3 (remanescentes) —, os Catalinas começaram a sumir das operações cotidianas.
O último deles deixou de voar na região entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980.
Deixou um grande legado: ainda hoje, os moradores mais antigos do Amazonas lembram o Catalina com nostalgia, respeito e a sensação de que “era ele quem chegava quando ninguém mais chegava”.
Para muita gente, o Catalina foi o primeiro avião que viram na vida — aquele gigante pousando no rio, levantando ondas e trazendo notícias da capital. Ele se tornou parte da memória afetiva da Amazônia.
Atualmente, existem hidroaviões que fazem voos de turismo pousando no Encontro das Águas (Rio Negro e Solimões), no Arquipélago de Anavilhanas e em hotéis de selva de Novo Airão.
Quem desejar fazer uma viagem virtual pode acessar o seguinte link:
Muitos historiadores e pesquisadores do nosso Amazonas gostam de publicar em suas redes sociais e em seus livros matérias e fotografias sobre a passagem dos Catalinas pela imensidão do nosso Estado, que, por sinal, eram conhecidos carinhosamente pelos ribeirinhos como “Pássaro Metálico”, “Barco Voador” e “Boi Voador do Amazonas”.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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