Por José Rocha – Hoje, bem cedo, ouvi umas músicas francesas no meu rádio a pilha. A primeira pessoa que me veio à mente foi o saudoso cantor e compositor Lúcio Bahia, um amigão do peito de quem tive o privilégio de compartilhar longas conversas e de ouvi-lo cantar em diversas ocasiões: no Bar do Metal, no Bar do Armando, na Praça da Polícia (a velha Rotunda) e em tantos outros cantos musicais da nossa Manaus.
Além de cantor, compositor e poeta, Lúcio era um eterno estudante da sociologia — um camarada dedicado a entender o funcionamento das sociedades humanas e as leis que regem as relações sociais. Lúcio Dourado, de batismo; Lúcio Bahia, de arte.
Chegou até a ser meu vizinho, morando de aluguel numa casa do Zigomar Madeira, ali na ladeira da Rua Tapajós. Gostava de conversar comigo, dizia achar-me espirituoso — porque, segundo ele, eu estava sempre rindo, fosse da bonança ou da miséria, sem reclamar de nada!
Certa vez, falou-me sobre seu passado em Manaus: não só como boêmio, mas também como um grande vendedor de leite holandês e de material publicitário. Nessa época, amealhou muita grana e chegou a morar numa mansão na Avenida Getúlio Vargas, com carrões na garagem. Viveu, como tantos, altos e baixos. Conheceu o mel e o fel. Muitos amores e dissabores.
Passou uma temporada em Maués, dono do mais lindo pôr-do-sol do Brasil. Inspirado nas belas praias, compôs a canção Beira de Rio:
“Como é bom morar na praia,
no lugar que se imagina viver,
numa praia, na beira do rio, me dá arrepios…
Saber que a sua cabeça não está nesse lugar.
Na beira do rio canta passarinhos,
na beira do rio olha o Sol se pondo,
aonde ele se esconde, do outro lado da praia…
Do lugar que se imagina.
Oi, oi, oi, Maués.”
Faz muito tempo. Na época do Armando e do seu Bar Doce Lar (o Palheta), Lúcio apareceu por lá pela primeira vez — creio eu. Foi convidado pelo Manoelzinho Batera para uma apresentaçãozinha curta, sem cachê, como sempre. Ocorre que o cantor esqueceu o cabo do violão. Resolvi ajudar: fui até a mesa do Benfica e o levei ao palco improvisado.
Disse ao Bahia:
— Que porra de cabo… serve um Coronel? Todos riram, menos o Coronel Benfica, que estava afônico, ficou puto e ainda puxou minha orelha!
Um dia, recebeu um telefonema de parentes da Bahia. Viajou para resolver a divisão de bens da família — voltou com boa grana. E, decidido, deixou Manaus para morar no beiradão do Rio Solimões, na Vila do Caldeirão, em Iranduba.
Lá plantava ervas medicinais, árvores frutíferas e criava animais. Tudo natural, orgânico, sem agrotóxicos. Buscava alimentação saudável, melhoria de vida, contato com a natureza. Viveu intensamente no lugar que resolveu chamar de seu.
Vinha à cidade apenas para tocar, cantar, encantar, receber seu merecido cachê e comprar mantimentos para ele, a roça e os bichos. Como escreveu o poeta João Nogueira:
“Eh, vida boa. Quanto tempo faz…
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
e de fazer canções como as que fizeram meu pai.”
Um fato curioso: no Caldeirão, Bahia batizou seu porco de estimação com o nome do maior mandatário político de Iranduba. O barrão chamava-se “Chico Doido”.
Ele justificou:
“Todo porco é Chico. Quando o meu porcino era um bacuri, mamava mais que os irmãos; cresceu forte e sadio. O outro, SEMPRE MAMOU NAS TETAS DO GOVERNO! O meu suíno adora uma lama; o outro VIVE NA LAMA DA CORRUPÇÃO! O meu porcão está na dieta da sopa: deu sopa, ele come e caga. Enquanto o outro COME E FAZ MERDA TODO DIA! O meu frimão é doido pela porca da vizinha; o outro É DOIDO POR DINHEIRO E PODER!”
A vida de Lúcio Bahia estava mudando para melhor, ressurgindo das cinzas como a fênix: novas canções, novos contos, encantos, shows para turistas e surfistas. Mas, em 27 de junho de 2020, seu filho Raoní informou que o pai havia falecido por insuficiência respiratória.
Valeu, amigo Lúcio Bahia! Você sempre será lembrado toda vez que eu ouvir uma música francesa — porque cantava essas melodias com emoção e com o coração.
Fotos: Rocha e Bahia no Roadway. Bahia e Batera no Bar metal. Bahia num barco de turistas (Rio Negro).
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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