Por José Rocha – Não sei se vocês já perceberam, mas eu tenho uma paixão por escrever sobre minhas caminhadas pela cidade de Manaus. Desta vez, porém, decidi fugir um pouco do centro histórico e me aventurar por um lugar diferente: um cemitério.
Não foi por acaso, nem por morbidez, mas por inspiração — para viver experiências que se transformam em crônicas sociais, alimento diário da minha alma de escritor. É um dom que o Criador me concedeu: a capacidade de transformar passos em palavras, e palavras em livros que, quem sabe, um dia serão publicados.
De repente, como quem recebe uma canção ou um sopro de ideia, surgiu em mim a decisão: visitar o túmulo da minha mãe. O próximo domingo seria o Dia das Mães, mas minha maezinha já habita o céu. A única forma de homenageá-la seria conversar com ela diante de sua sepultura, pedir sua bênção e dizer que, em algum futuro não tão distante, estaremos juntos novamente no plano espiritual.
Logo na entrada do Campo Santo, percebi as diferenças sociais refletidas até ali: famílias mais abastadas compram jazigos em locais privilegiados, pagos a peso de ouro, mesmo em um cemitério público.
Eu, simples, cheguei de ônibus, vestindo bermuda, camisa esporte, sandálias havaianas e levando um guarda-chuva. Coisas de pobre, mas com espírito elevado.
Com a localização correta dada por minha irmã Graciente Soares, finalmente encontrei a sepultura da minha mãe. Antes, sempre me perdia. Perguntei a vários trabalhadores do cemitério, mas muitos só indicavam o caminho errado, esperando que eu pagasse por serviços de limpeza. Até ali, o comércio se fazia presente. Um senhor, de forma espontânea, me ajudou a encontrar o túmulo. Ele também quis limpar, mas recusei: o amor que sinto por minha mãe não se mede em dinheiro, mas em presença. Passei mais tempo limpando do que rezando, mas senti que ela sorriu para mim naquele instante.
Depois, tentei encontrar a sepultura de meu pai. Perguntei a vários trabalhadores, mas a resposta era sempre a mesma: “Quer que eu limpe o túmulo?” Não consegui localizá-lo.
A paisagem muda, e até no cemitério tudo se transforma. Voltarei outro dia, disposto a pagar um profissional para localizar o jazigo do meu pai, um dos maiores luthiers de nossa cidade. Mas essa é outra história.
Amigos, caminhei entre sepulturas, enfrentei chuva, lama e barro.
Não senti medo algum, pois era meio-dia, a transição entre luz e escuridão. E percebi: um dia também estarei ali, enterrado. Só não sei se meus filhos e netos farão essa mesma caminhada para visitar o túmulo de seus pais e avós.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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Meu muito obrigado!




