Por José Rocha – A verdade, meus amigos, é que minha geração está partindo, e isso dói mais do que admitir a idade chegando. Sou da época em que era possível tomar banho de Cacimbas, no Igarapé de Manaus, no Tarumazinho e no Balneário do P10 como quem não quer nada, só para sentir a água fria batendo no peito.
Pulávamos até da Primeira Ponte dentro do igarapé, sem medo, sem frescura, sem essa porra de preocupação moderna com perigo.
A Bolacha era a de Motor da Modelo, o Café era torrado e pilado em casa, o Leite era in natura e a Manteiga regional tinha gosto de verdade. A gente dava com força num Biju, num Pé de Moleque, num Mingau de Banana com Tapioca. Suco de Caju, Açaí, Buriti e Cupuaçu, tudo feito na hora, sem essa frescura industrializada.
O Fogareiro era na base do carvão, e o Ferro de Engomar também. A Galinha era morta na hora, o peixe era frito dia sim, dia não, e o Jaraqui era a solução, sempre acompanhado da Farinha Grossa e de um bom Feijão.
E as surras? Surra a gente pegava quase todos os dias, porque moleque é moleque, não tem jeito, não! E ninguém morreu por causa disso — no máximo ficava esperto.Na escola, o bolo na mão pegava, e o lanche era Pão com Pão e um Leite de posto (de soja) — pense num leite escroto da porra! A gente tomava água encanada, coada no Pote de Barro.
Antes da luz chegar, a Lamparina e o Candeeiro iluminavam a noite escura, e todo mundo dormia em Redes, embalado pelo barulho dos grilos e das histórias contadas baixinho.
Aos domingos, era sagrado: compras no Mercadão, missa na Matriz, filme no Guarany ou futebol no Parque Amazonense. Era o nosso ritual simples e feliz.Somente na maioridade fomos mudando para uma vida “melhor” — ou pior, sei não! Porque nessa tal modernidade muita coisa ficou pelo caminho.
Hoje somos sexy, digo, Sexagenários, e estamos vivos, graças a Deus… mas a verdade é que minha geração está partindo aos poucos. E cada vez que um amigo se vai, parece que um pedaço daquela Manaus antiga vai embora junto — aquela que não volta mais.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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