Por José Rocha – No dia 28 de janeiro de 2007, meu pai, o luthier José Rocha Martins, deixou este plano aos 84 anos. Para falar sobre ele e sobre a bela profissão que exerceu, busquei um resumo biográfico presente na matéria publicada em 16 de janeiro de 2011, no jornal Amazonas em Tempo, escrita pelo jornalista e escritor Evaldo Ferreira. Participei daquela entrevista e forneci todo o material de que disponho para a elaboração da reportagem.
Evaldo Ferreira: “O menino José nasceu num dia triste para os católicos, uma Sexta-Feira da Paixão, em 23 de março de 1923, por isso sua mãe, Dona Lídia Pires Martins, uma católica fervorosa, tratou logo por chamá-lo de José da Paixão (sem certidão de nascimento). O Martins veio como sobrenome da família. “Rochinha” era o seu apelido e “Rocha” foi-lhe adicionado anos depois em cartório.
Até o nome da cidade, no sertão cearense, aonde o pequeno veio ao mundo, também não era dos melhores: Uruburetama, ou terra dos urubus. Alheio a todas essas condições adversas, José nasceu marcado para alegrar. Ainda no Nordeste, o menino passou a ser conhecido como Rochinha, um apelido dado pela molecada, pois dizia que ele era a cara do padre Rocha, um homem negro, baixinho, cabelo pixaim e barrigudo, pároco de Uruburetama.
Quando Rochinha nasceu seu pai estava longe, como um dos milhares de nordestinos seringueiros espalhados pela Amazônia, no caso, no Alto Juruá. No ano em que o garoto completou 12 anos de idade, veio para Manaus, junto com a mãe e um irmão, à procura do pai. Um dia, já adolescente, trabalhando numa fábrica de beneficiamento de castanhas, Rochinha foi abordado por fiscais da Delegacia do Trabalho que o encontraram sem documento nenhum. Com a ajuda de um vizinho, que era advogado, ele foi tirar todos os documentos. Na hora da certidão de nascimento, resolveu incorporar o nome Rocha e excluir o Paixão. O apelido, que o marcara desde garoto, agora estava oficializado como nome. Era questão de tempo, para também marcar entre os músicos da cidade.
Em 1940, Rochinha foi trabalhar como “boy” na fábrica de instrumentos “Bandolim Amazonense” pertencente ao Senhor Manuel Nascimento. A fábrica ficava nos porões de um prédio, na Rua dos Barés, onde atualmente funciona a Casa Alba.
Na ‘Bandolim Amazonense’ o jovem se dedicou com tanto empenho que nem demorou para aprender a arte da luteria, então chamada de artesanato, tanto que, em alguns anos, se tornou capaz de fazer e consertar praticamente todos os instrumentos de cordas: violão, cavaquinho, bambolim, citara, violino, guitarra elétrica, contrabaixo, entre outros. Seguro de si passou a trabalhar por conta própria, com três contos de réis emprestados de sua comadre, montou a “Artesanato Amazonense Rochinha”, primeiro num flutuante, depois, na Huascar de Figueiredo com o Igarapé de Manaus.
José Martins Rocha, filho de Rochinha, contou que a oficina não tinha nenhuma máquina possante, “somente uma pequena serra elétrica e muitas ferramentas. O resto era criatividade e suor no rosto”. Sobre as madeiras para confeccionar os instrumentos, José Martins, explicou: “Ele tinha um compadre que morava no interior, na época da enchente, vinha até Manaus num barco e deixava peças de Macacaúba, Cedro e Marupá”. O pinho era retirado das caixas de bacalhau doado pelo Sr. Armindo, da Casa Renascença, na Avenida Joaquim Nabuco. Um dia deixaram de embalar os bacalhaus com o pinho e ele teve que substituir essa madeira pelo regional Marupá.
“Sobre essa madeira, aconteceu uma história curiosa”, lembrou. Pesquisadores do INPA visitaram a oficina do Rochinha e perguntaram como é que ele conseguia beneficiar o Marupá. O Luthier explicou que o seu compadre só cortava a madeira em noite de lua cheia. Os pesquisadores disseram que aquilo não tinha fundamento científico. Foram embora e passaram um bom tempo pesquisando. Quando voltaram à oficina de Rochinha explicaram que realmente a lua cheia tinha influência no corte do Marupá. “Esta madeira é muito sensível, ela funga rapidamente e fica podre. Acredito que com o corte na lua cheia, a seiva seca rapidamente, tornando menos suscetível a pragas e rachaduras”, acrescentou José Martins.
Já a cola para colar as partes dos instrumentos era feita do bucho do Tambaqui, adquirido no Mercado Adolpho Lisboa. “É excelente para colar madeiras, no entanto, foi substituída quando do surgimento da cola branca de PVC”, acrescentou.
Um nome nacional – Por mais de 60 anos Rochinha confeccionou artesanalmente instrumentos musicais, inclusive para artistas nacionais, com os cantores e compositores Gilberto Gil e Wando. Certa feita, o cantor Silvio Caldas fazia um show no Olímpico Clube quando a tarraxa do seu violão arrebentou, soltando a corda. Rochinha assistia ao show, tendo ao seu lado um violão que, imediatamente, emprestou a Silvio Caldas.
“Ele adorou o meu violão e acabou vindo aqui para encomendar um para ele e disse que eu também era um grande artista”, disse Rochinha depois.
A oficina do Luthier vivia repleta de cantores, músicos, amantes de uma boa música, compositores, artistas, jornalistas, poetas e até doutores. “Eles se reuniam nos finais de semana na oficina do papai para cantar e tocar os instrumentos do meu velho”, contou José Martins. “Meu pai fazia uma média de dois violões por mês, vendidos a R$ 1.500,00 nos preços de hoje”.
Apesar do esmero com que confeccionava esses instrumentos, ganhava pouco, o suficiente para sustentar a família e muitas vezes teve que fazer serviços de carpintaria para completar a renda do mês.
“Como eu nunca fiz serviço barato e não podia competir com as lojas que tinham condições de vender por crediário, eram muito poucas as encomendas que atendia. Então, o pouco dinheiro que ganhei foi reformando e consertando instrumentos. Poucos tinham dinheiro para comprar violão meu”, falou Rochinha em uma reportagem.
Homenagem ao pai. O grande sonho de Rochinha, no entanto, ele nunca conseguiu realizar: ensinar o ofício a jovens. “Ele costumava dizer para os amigos que os filhos não tinham vocação para a luteria. Na realidade, ele queria que nós fizéssemos uma faculdade, pois sabia que aquela profissão dele não daria futuro para nós. Porém, com o seu trabalho de Luthier, meu pai conseguiu formar os seus três filhos. Este sonho ele realizou”, disse José Martins.
Rochinha ainda teve a ajuda do Prefeito Arthur Neto, em 1992 que mandou uma mensagem para a Câmara Municipal de Manaus, concedendo a ele uma aposentadoria de cinco salários mínimos, a proposta foi aprovada por unanimidade pelos vereadores, por seu mérito na divulgação da arte e da música por longas décadas em nossa cidade.
“Minha ideia é reunir os meus dois irmãos, levantar recursos junto a Agência de Fomento do Estado do Amazonas; fazer convênios com o INPA, na área de madeiras; descobrir os fornecedores de madeiras certificadas para, quem sabe, criarmos uma oficina de violões, a Di Rocha, em homenagem ao meu pai”, falou com esperanças José Martins, que aguarda a sete chaves o último exemplar de um violão confeccionado por Rochinha.

A luteria de Rochinha ficava no porão de uma bela casa (cedida a ele desde 1965), batizada por ele como “Solar dos Bringel”, localizada na esquina das ruas Huascar de Figueiredo com a Igarapé de Manaus. “Meu pai trabalhou lá por mais de 20 anos. Há algum tempo, os filhos de João Bringel venderam o imóvel para a Uninorte que simplesmente colocou a casa no chão, passou asfalto no local e transformou a área num estacionamento”, lamentou.
Em 1985, Rochinha sofre um AVC e praticamente parou de trabalhar. Morreu em 28 de janeiro de 2007, com 83 anos”.
O autor quando escreveu o texto acima era articulista do Jornal Amazonas em Tempo (atualmente, faz parte dos quadros do Jornal do Commercio). O Evaldo Ferreira é jornalista e psicólogo, escritor, poeta, membro da EDUA e editor da Revista Literária.
Fotos: 1. Meu pai com os alunos do saudoso luthier Rubens. 2. Sala Di Rocha.
Matéria republicada no meu livro ‘O Igarapé de Manaus’.



