Por José Rocha – A peixaria original ficava na esquina das ruas dos Andradas e Pedro Botelho, um verdadeiro templo do jaraqui frito que ali permaneceu por trinta anos. Hoje, a tradição continua viva na Praça 14 de Janeiro, mantida por um dos herdeiros da família.
O Senhor Alfredo da Silva Neto comprou um antigo imóvel para abrir uma mercearia destinada à venda de produtos variados, incluindo secos e molhados e até querosene. Porém, por sugestão de um amigo, decidiu vender peixe frito — e nunca mais parou. O lugar logo se tornou famoso entre os manauaras e bastante frequentado por turistas.

Uma curiosidade: Alfredo era torcedor fanático do Atlético Rio Negro Clube, cujo mascote é o “Galo Carijó”, ave de plumagem preta e branca, combinando perfeitamente com as cores do time. Nada mais natural, portanto, do que batizar seu estabelecimento como Peixaria Galo Carijó.
Os peixes eram comprados diretamente dos pescadores, cuidadosamente tratados e temperados com o “segredo do chef”. O carro-chefe era o peixe frito, servido quase dourado, sem um pingo de óleo, acompanhado de baião de dois, tucupi, limão, pimenta murupi, farinha Uarini e uma cervejinha bem gelada. Quem iria resistir? Ninguém!
O salão vivia lotado: moradores simples da redondeza, jornalistas, turistas, empresários, políticos e até homens de paletó e gravata — todos recebiam o mesmo atendimento, do estivador ao doutor.
Certa vez, um norte-americano veio a Manaus para fazer uma reportagem sobre a Amazônia. Visitou o famoso templo do peixe, saboreou um jaraqui frito e, de volta aos Estados Unidos, publicou no New York Times uma matéria intitulada “The King of Fisher”. Enviou um exemplar do jornal ao Senhor Alfredo, que o emoldurou e pendurou na parede da peixaria, onde ficou por longos anos como um troféu.
Eu era cliente assíduo. Todos me conheciam: os donos, as cozinheiras, as garçonetes e até o “flanelinha da esquina”. Certa vez, cheguei e o restaurante estava lotado. Esperei em pé até conseguir uma mesa. Sentado sozinho, pedi logo um jaraqui frito. Ainda cheio, dois rapazes, com forte sotaque cearense, pediram para compartilhar a mesa. Consenti. Eles falavam sobre negócios em Manaus quando a garçonete perguntou se queriam o mesmo prato. Um deles respondeu:
— Não gostamos desse peixe, não! Isso é peixe de amazonense. Queremos é dois tucunarés bem fritinhos!
Para não ser grosseiro, levantei-me e troquei de mesa antes que meu manjar chegasse.
O Senhor Alfredo faleceu antes dos anos 2000, mas Dona Maria Antonieta e a família mantiveram o mesmo atendimento e o sabor inigualável do point do jaraqui frito. Infelizmente, em 2020 veio a pandemia da COVID-19, que se estendeu até o fim de 2021. Foi um golpe mortal para bares e restaurantes, obrigados a permanecer fechados. O querido Restaurante Galo Carijó não resistiu: fechou as portas e nunca mais reabriu.
O prédio antigo, datado de 1906, fará 120 anos em 2026. Ainda pertence ao espólio do Senhor Alfredo. Está fechado, com a fachada recém-pintada nas cores originais e uma placa de “Vende-se”. Na fotografia percebe-se também o anexo pela Rua dos Andradas, onde funcionava a cozinha do antigo restaurante.
Mas não se engane: a história não terminou. Alfredo Filho, o conhecido “Alfredinho”, deu continuidade legítima à tradição do Galo Carijó. Ele mantém um box no Mercado Municipal Miranda Corrêa, na Praça 14 de Janeiro, onde trabalha uma das antigas cozinheiras da peixaria, preservando uma ligação direta com o restaurante histórico do Centro.
De um lado, o passado à venda, esperando um destino incerto. Do outro, Alfredinho na Praça 14, com o chiado da frigideira preparando um jaraqui frito, segurando firme a chama do pai. A tradição continua.
Fontes: Portal Mario Adolfo
BLOGDOROCHA
Alfredo Filho ‘Alfredinho Galo Carijo’
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



