Por José Rocha – Nascido em Manaus a 7 de outubro de 1934, Salim Gonçalves Chaim tinha na voz a mistura das suas raízes — pai libanês, Kalil Chaim, dono de um armarinho na Rua Epaminondas, e mãe portuguesa. Desde garoto agarrou o violão como destino; percorreu ruas e praças, acompanhado de amigos e do inseparável instrumento, presenteando enamorados com serenatas madrugada adentro.
Aos dezoito anos fez uma pausa nas cordas para cumprir o dever — serviu ao Exército Brasileiro entre 1952 e 1953 — e logo retomou a música. Em 1954 brilhou no programa Alfredo Fernandes, da Rádio Baré, e em 1956, amigo pessoal do saudoso Josué Cláudio de Souza, estreou na Rádio Difusora o programa Serestas, que apresentou com autoridade por 28 anos (1956–1984). No final de 1984 transferiu-se para a Rádio Rio Mar, onde por mais seis anos (1984–1990) comandou No Reinado da Música com igual prestígio.
Em 1962 surgiu seu maior êxito: Coração Indeciso, de Domingos Lima — parecia feita para sua voz e consagrou intérprete e autor. Em 1968 gravou pela Universal Records um compacto duplo, destacando a interpretação de Fátima, sua composição em parceria com Digilona. Em 1986 lançou o LP Seresteiro Romântico, interpretando com brilho várias joias da MPB, e mais tarde o CD Seresteiro Romântico Vol. 2 — Só Boleros.
Morava na Rua Apurinã (Rua da Feira), próximo à Rua Tarumã, no bairro Praça 14 de Janeiro. Lembro-o também andando pela Rua Henrique Martins, no Canto do Fuxico, vestido com calça de linho, camisa à La Falcão e bolsa de prestamista — imagem simples do artista que vivia a cidade.
Na minha infância — quando não havia internet, TV a cabo, smartphones ou o resto do lixo tecnológico que viria depois — as rádios reinavam: Difusora (Eu, Você e a Música / Chegou a Hora do Rock), Baré (Caleidoscópio Baré / Programa Em Bossa Nova) e Tropical (Night And Day). Eram palcos e pontes culturais: Maloca dos Barés, Os Melhores do Rádio, A Festa da Mocidade, Festival de Dublagem. Os castings tinham nomes que a cidade reconhecia: Salim Gonçalves, Kátia Maria, Lili Andrade, Adelson Santos, Lucinha Cabral, Guimar Cunha, Domingos Lima, The Rocks, The Rights, Os Embaixadores…
Na Difusora ele cantava logo após a tradicional “Oração das Seis Horas” do eterno Josué Pai. Detonava a voz, acompanhado do Moisés do Violino e do Simões do Violão — famoso pelas unhas de gavião — e transformava a sala de casa num altar de romance. Meu pai tinha um rádio a válvulas; demorava a esquentar, a sintonia parecia um rito. Mas, quando pegava a Difusora, toda a família se reunia: respirávamos serenatas que celebravam Granada, Mujer, Noche de Ronda, Solamente una Vez, Farolito, El Reloj, La Barca, Bésame Mucho, Vereda Tropical.
Faleceu em 2007, aos 73 anos, mas sua voz continua viva nas ondas do rádio da memória. Salim não cantava só canções — dava corpo e cor às saudades da cidade, e Manaus escutava, encantada, o seu seresteiro romântico.
Fontes: BLOGDOROCHA, Biografia constante no CD acima citado e Bosco Saraiva
Foto: Montagem do CD Salim Gonçalves ‘Seresteiro Romantico Só Boleros (acervo do Ari Neto).
Correção: ChatGPT
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
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