Por José Rocha – Dizem que cada um tem seu sonho de consumo. O do Zé Mundão era simples: dirigir um Puma GTS vermelho Ferrari.
Nada de ser dono — só queria sentir o volante, o banco de couro e a pose. O problema é que o felizardão proprietário era um daqueles filhinhos de papai de Manaus, o tipo que tinha mais ciúme do carro do que da própria namorada — uma loiraça cheia de dengo.
Zé nem perdia tempo olhando pra moça; o interesse dele era o Puma, puro-sangue nacional, ronco bonito e charme de carro europeu. O coitado mal tinha dinheiro pra botar gasolina no fusquinha; quanto mais pra comprar um carro que nem estava à venda. O dono, confortável em cima da carne seca, não emprestava nem para o pai — imagine para o Zé.
Mas o destino é gaiato. A loirinha cansou de desfilar no Puma e pulou para o lado de um marmanjo que tinha um Opala Comodoro completíssimo: ar, direção, vidros verdes, capota de vinil… um encanto para uma Maria gasolina.
O “cornão” chorou mais do que bezerro atrás da vaca. Zé, muito amigo, consolava — mas a verdade é que não estava nem aí para a dor do rapaz. O foco dele era um só: um dia entrar naquele Puma.
O tempo passou, o filhinho de papai secou as lágrimas e foi tentar conquistar a Rosinha — a prima do próprio Zé. Morena jambo, corpo de violão, peituda, pernuda e com bundão arrebitado. O primo já tinha dado uns amassos nela, pois, segundo sua filosofia, prima não é parente nem aderente.
Oportunista que era, Zé fez a proposta indecorosa:
— Gente boa, eu ajudo contigo. Levo a conversa, entrego a Rosinha de bandeja… mas tu me emprestas o Puma de vez em quando.
O bacana deu um pulo.
— Tá maluco, Zé? Meu Puma eu não empresto nem pro papai!
Só que o Zé era paciente. E já tinha armado o circo com a Rosinha: pediu pra ela fazer doce, duro, duríssimo. O rapaz investiu pesado: levou ao Pinguim, ao Chapéu de Palha, ao Canto da Peixada, até ao cinema do Studio Center… e nada!
Tudo estratégia do primo.
Cansado de sofrer, o filhinho de papai voltou de mansinho:
— Zé, me ajuda. Empresto o Puma uma vez por ano.
Zé arregalou os olhos:
— Uma vez por ano? Quero todo final de semana!
O rapaz quase infartou. Mas o Zé deu a cartada final:
— Se quiser a Rosinha no teu colo… o Puma vem no meu.
Negócio fechado.
A primeira saída do Zé foi memorável. Recebeu o Puma num sábado à noite e, antes mesmo de ligar o motor, já pensava no toca-fitas Roadstar tocando Beatles no volume máximo.
Saiu desfilando pelas ruas de Manaus, todo besta. No bar do Gordo, anunciou:
— Esse é meu. Pago e quitado. Só saio com ele no fim de semana. Macho carona não entra, nem pagando!
Tomou duas Montillas com gelo, limão e coca — sua assinatura — e partiu para rodar a cidade. Parou no Cheik Club, sentou no capô e ficou esperando as gatinhas. Não precisou nem paquerar; elas vinham espontâneas. Escolheu duas na pontaria e rodou todos os points.
A noite esquentou e ele levou as moças para a Cachoeira das Almas, no Tarumã. Lama até o talo, mas quem se importava? As duas ficaram de calcinha e sutiã no igarapé. O Puma, coitado, começava a chorar em silêncio.
Depois seguiram para a Ponta Negra. No caminho, uma das gatas pediu pra ele parar perto de um despacho. A moça desceu, e aí o bicho pegou: pegou santo, rolou no chão, ralou os joelhos, mudou a voz. Um adepto chegou educado:
— Leve sua amiga. A linha dela não é daqui.
Zé, gaiato:
— Deixa comigo, irmão.
A moça, ralada e sangrando, sujou o banco do Puma.
E a noite continuou: voltaram ao Tarumã, tomaram banho pelados, amanheceram na cachoeira, tomaram café no Café da Loura e foram deixar as gatinhas. Zé dormiu como um justo.
Mas ao meio-dia, foi arrancado do sono:
— Zé, filho da baraga! Tu nunca mais encostas no meu carro! Tá cheio de lama, barro, sangue e ainda amassaste a traseira!
Zé, ainda com remela no olho:
— Calma, gente boa. Eu lavo, passo cera, deixo novo. E segunda mando desamassar. Fechou?
— Fechou nada! E outra: tua prima é a maior fuleiragem! Tô fora!
Fim do sonho motorizado de Zé Mundão.
O Puma, esse sim, ficou na memória do caboclo: um esportivo nacional criado nos anos 60 pelo apaixonado Rino Malzoni, lembrando a Ferrari 250 GTO. Linha agressiva, bonita, aerodinâmica impecável. Não é à toa que até hoje muita gente suspira por um Puminha.
Zé Mundão, entretanto, só pôde suspirar — e por pouco tempo.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.



