Por José Rocha – Na década de setenta, a Moto Importadora Ltda. era uma empresa genuinamente amazonense, magistralmente administrada pelo senhor Natan Albuquerque. Foi a pioneira na importação diretamente do Japão de automóveis e motos da marca Honda. O maior sucesso foi, sem dúvida, um carrinho bastante popular, apelidado por alguns de “caixa de fósforos” em decorrência do seu diminuto tamanho — mas que comportava quatro pessoas tranquilamente em seu interior.
Eu ainda era muito jovem e trabalhava na empresa Importadora Souza Arnaud Ltda., situada à Rua Marechal Deodoro. Ela revendia móveis, eletrodomésticos, motores de centro e de popa, além de peças de reposição. Meu superior era o Lázaro Castro, chefe do Setor de Importação. Ele tinha um carrinho da Honda na cor branco gelo, utilizado também para serviços externos da empresa, e tive o prazer de andar de carona nele por um bom tempo.
Num certo dia, fomos buscar no Hotel Amazonas um fiscal da Receita Federal — vindo do Rio de Janeiro para auxiliar os colegas locais — e levá-lo ao depósito da nossa empresa (onde hoje se encontra o Residencial Ephigenio Salles), para a liberação (selagem) de motores importados que haviam sido vendidos para a Amazônia Ocidental. Quando o referido fiscal viu o carro da Honda, não quis entrar de forma alguma. Achou aquilo uma brincadeira, pois, para ele, não passava de um brinquedo, de tão pequeno que era.
Ele disse, em tom de gozação: “Um carrinho desse eu dou para o meu filho brincar lá no Rio.”
Depois de muita conversa, ficou convencido a entrar. No início, esteve temeroso, mas aos poucos foi relaxando e se encantando com o “caixa de fósforos”. Gostou tanto do carro que pediu emprestado para passear no final de semana.
Tínhamos outros carros disponíveis para levar os fiscais durante a liberação das nossas mercadorias, mas aquele fiscal carioca fazia questão de ir somente no “Hondinha”.
Na realidade, era um carro muito bem projetado pelos japoneses: três portas, quatro lugares confortáveis, câmbio na coluna de direção e velocidade máxima bastante satisfatória. Praticamente não dava defeito e consumia apenas um litro de gasolina a cada trinta quilômetros, além de custar em torno de sessenta por cento do preço de um carro popular atual.
O dono da Moto Importadora, o senhor Natan, resolveu fechar todas as suas lojas em 1982, após a morte do seu filho primogênito, Natanhiel, em um acidente de carro — tragédia que ocasionou a paralisação das importações dos automóveis Honda. Vale registrar que esse empresário foi um dos sócios fundadores da Moto Honda da Amazônia, no Distrito Industrial.
O preço médio atual de um Honda Life Step Van (o “caixa de fósforos” da Honda) no Brasil varia entre R$ 20 mil e R$ 35 mil, dependendo do estado de conservação e da originalidade das peças. Modelos restaurados ou em excelente estado podem ultrapassar R$ 40 mil em sites de colecionadores e leilões especializados.
Os japoneses eram visionários: nos dias atuais, diante dos congestionamentos, da escassez de vagas para estacionar e do elevado preço dos combustíveis, esses minicarros seriam a solução ideal para as grandes cidades. Os modelos fabricados atualmente por diversas montadoras são bastante caros. Seria muito bom ver os “Hondinhas caixa de fósforos” de volta, com um preço tão acessível quanto o de antigamente.
Nota técnica — Honda Life Step Van (ou Honda Life Van)
O automóvel da foto é o Honda Life Step Van, produzido entre 1971 e 1974. Fazia parte da família Honda Life, uma linha de kei cars — a categoria japonesa de minicarros com motor pequeno, criada justamente para solucionar os problemas urbanos do Japão do pós-guerra.
Características técnicas: Motor de 2 cilindros, 360 cc (refrigerado a ar). Câmbio na coluna de direção. Carroceria tipo van compacta, com 3 portas. Consumo excepcional: cerca de 30 km/litro. Velocidade máxima de aproximadamente 100 km/h. Peso de apenas 400 kg.
Por que era genial? Os engenheiros da Honda aproveitaram cada centímetro do espaço disponível. O motor ficava sob o assoalho ou à frente do eixo dianteiro, liberando o habitáculo inteiro para os passageiros — daí a capacidade de acomodar quatro pessoas confortavelmente num carro tão compacto. O câmbio na coluna eliminava o túnel central, ampliando ainda mais o espaço interno.
O autor é manauara, administrador (UFAM), blogueiro (BLOGDOROCHA), criador de conteúdos digitais, escritor e pesquisador da nossa cultura.
Se você gostou desta crônica e deseja apoiar meu trabalho de pesquisa, memória e escrita sobre Manaus e a Amazônia, sua colaboração será muito bem-vinda. Quem quiser, pode enviar qualquer valor pelo Pix: 9299153-7448. José Martins Soares.
Meu muito obrigado!




